Repensando a inovação em educação

Especialista de Harvard defende retomada de princípios morais do ensino e diz que testes não avaliam as 'competências do século 21'

SERGIO POMPEU , ESTADÃO.EDU, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h07

Há um ano, o venezuelano Fernando Reimers, diretor do centro de Educação Global de Harvard, visitou o câmpus de outra universidade de elite americana, Stanford. Ficou intrigado com o Edifício Gates de Ciência da Computação e topou com uma metáfora para o que considera uma das questões centrais da educação hoje: a dificuldade de os modelos de avaliação estimularem as competências necessárias para o século 21. Resumindo bem a história, Bill Gates financiou o prédio como uma espécie de vendetta contra um professor que lhe deu nota F em matemática - episódio que fez o futuro bilionário, criador da Microsoft, abandonar a universidade.

"Aquele F não significava nada, não tinha nenhuma relação com o que esse sujeito era capaz de fazer", diz Reimers. Renomado especialista em inovação, ele contesta a validade dos modelos que cobram dos alunos altíssima performance nos conteúdos tradicionais - algo que os recentes avanços da tecnologia na educação ameaçam aprofundar.

Para Reimers, inovar hoje é usar recursos como a tecnologia para retomar o princípio moral dos primeiros defensores da educação pública, a visão humanista de que instruir as pessoas é um anteparo contra a barbárie. "Muito do esforço que fizemos na educação perdeu conexão com as coisas realmente importantes."

Embora há décadas já exista uma hierarquia que distingue habilidades cognitivas - na base da pirâmide está a memorização e no topo as capacidades de síntese e avaliação -, Reimers acha que é preciso ir além. "Nós somos também emoções e habilidades sociais", diz, citando entre essas competências a capacidade de inovar, de criar empatia e de controlar impulsos básicos em favor do bem comum. "Uma competência considerada importante hoje nos Estados Unidos é o que eles chamam de grit (perseverança), aquilo que faz você nunca se dar por vencido após falhar e continuar tentando." Não é algo captável pelos testes tradicionais, que medem basicamente memorização. "Mas é uma qualidade que você pode reconhecer na sua experiência ou na de outras pessoas."

Reimers esteve na semana passada em São Paulo com alunos de um grupo especial de Harvard, criado para transformar pessoas maduras, que já consolidaram sua carreira, em líderes capazes de atacar os grandes desafios globais. Conheceu a favela de Heliópolis, em marcha acelerada de urbanização. Encontrou lá outro exemplo para suas teses. Encantou-se com o Instituto Baccarelli, que dá formação musical às crianças e jovens.

"O instituto está ensinando a esses garotos uma noção diferente de individualidade, abrindo janelas, ensinando a trabalhar em grupo, a criar", afirma. "Mas estou certo de que no contexto atual do Brasil e de vários outros países vai haver gente mais preocupada em saber se isso vai melhorar o desempenho deles num exame nacional como o Enem."

Para o professor de Harvard, a "tragédia" da educação atualmente é o fato de mesmo pessoas privilegiadas economicamente ficarem décadas no sistema de ensino e saírem de lá quase que de mãos abanando. "Muitas delas não têm noção de como ser autoras de suas próprias vidas, cidadãos com alguma contribuição à sociedade", critica Reimers. "Heliópolis é um contexto onde isso está sendo pensado."

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