Repetição de fatos mostra que está em curso uma nova revolução no Irã

A recusa da oposição iraniana em ceder e a impressão de desespero cada vez maior transmitida pelo regime fez com que muitos observadores indagassem se a segunda revolução iraniana teria finalmente começado.

Simon Tisdall*, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2009 | 00h00

A cada disparo fatal, a cada granada de gás lacrimogêneo e a cada detenção equivocada, os herdeiros do aiatolá Ruhollah Khomeini e do golpe de Estado islâmico de 1979 se descobrem cada vez mais isolados e no lado errado da história. Aqueles que se levantaram para depôr o xá, 30 anos atrás, ocupam agora o posto de opressores. Seu próprio mártir, o imã Hussein, agora é usado contra eles para dramatizar a crueldade do regime que representam.

Os estudantes fanáticos que arruinaram um presidente americano e os leais guerreiros que enfrentaram Saddam Hussein durante oito anos de guerra tornaram-se o establishment que tanto repudiavam - incompetente, corrupto e detestado. "Lutaremos, morreremos, retomaremos nosso país!", entoavam no domingo manifestantes em Teerã, ostentando faixas verdes como se elas pudessem, por mágica, protegê-los de balas e cassetetes.

Nos próximos dias, descobriremos se a segunda revolução, não mais restrita a queixas eleitorais, mas imbuída da premissa mais ampla da deposição do regime, será capaz de manter ou intensificar sua força atual.

A nova onda de protestos, que teve início no dia 7, ganhou uma base de apoio mais ampla com a morte do aiatolá Hossein Ali Montazeri, famoso reformista. A decisão do regime de enviar a milícia basiji contra aqueles que participavam do funeral - muitos dos quais não eram manifestantes - nas mesquitas de Qom e Isfahan parece ter chocado e afastado cidadãos antes leais ao regime.

O assassinato de Ali Mousavi, sobrinho do líder reformista Mir Hossein Mousavi, no domingo, voltou a inflamar os protestos no país, marcando, como de costume, o terceiro, sétimo e quadragésimo dias após a sua morte. Nesta sequência entrarão também outros 15 feriados religiosos depois da Ashura e um bom número de comemorações políticas, todas representando possíveis pontos de concentração para manifestações.

Conforme destacou Meir Javedanfar, especialista em Oriente Médio, novas mortes levarão a mais velórios e a um número ainda maior de protestos, um conhecido ciclo de dissidência que precedeu à queda do xá. "As manifestações podem se transformar em uma campanha generalizada de desobediência civil, semelhante à primeira Intifada dos palestinos contra Israel", disse Javedanfar. "Os ataques do aiatolá Ali Khamenei contra os iranianos, seguidos por ataques contra mesquitas e religiosos, estão criando o núcleo de uma ideologia que legitima a oposição, não apenas nas grandes cidades, mas em todo o país."

LEGITIMIDADE

Khamenei e seu protegido, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, poderiam interromper essa espiral descendente se abandonassem a teimosa recusa de reconhecer seus críticos. Nada indica, porém, que eles tenham intenção de fazê-lo.

Em vez disso, é provável que eles avancem de uma política de controle seletivo, repressão e intimidação, para um combate mais amplo e sistemático aos dissidentes, o que poderia envolver uma declaração de lei marcial, a detenção de líderes opositores e um completo blecaute da mídia.

Se táticas empregadas anteriormente servirem como guia, o regime intensificará a repressão com alegações de interferência estrangeira. A detenção de supostos membros de um grupo exilado de oposição já foi anunciada. Novas alegações devem surgir.

A recente detenção de alpinistas americanos e marinheiros britânicos está de acordo com a prática de transferir seus problemas para o exterior e desviar a atenção de fracassos internos. O regime usa a preocupação com seu programa nuclear de maneira semelhante, estimulando o sentimento antiocidental dentro do país, traçando o retrato de uma heroica república islâmica sitiada por adversários infiéis. Assim, mantém o controle e o poder.

No entanto, conforme as frentes de combate se tornam mais claras, detectamos uma mudança: uma política fantasiosa e uma atitude paranoica não ocultam mais as fissuras políticas e econômicas que fragmentam o Irã. Talvez o regime ainda possa se manter no pode, mas a legitimidade da república de Khomeini está esgotada.

*Simon Tisdall é colunista de política externa

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