Ahmad Masood/Reuters - 04/08/2009
Ahmad Masood/Reuters - 04/08/2009

Respiro ameaçado

Mulheres afegãs retornaram à escola, trabalham fora e alegram as ruas com hejabs coloridos. Se o Taleban voltar, tudo isso acaba

Adriana Carranca,

05 Maio 2012 | 16h38

CABUL / AFEGANISTÃO - Qais engatinha sobre o tapete, tenta ficar de pé e cai entre as almofadas. O pai sorri. É seu primeiro filho. Ele e a mulher não pretendiam pegar o menino, mas Alá só lhes mandou filhas mulheres. Com a perspectiva da volta do Taleban, quem vai cuidar da família no futuro? Abdul Halim, o pai, tem 37 anos - a expectativa de vida no Afeganistão é de 42. Ele decidiu comprar Qais por US$ 1 mil em uma maternidade de Cabul. No caso de o futuro sombrio chegar, o bebê será o protetor da família. Um filho guardião.

O comércio de recém-nascidos é apenas uma das mazelas sociais criadas pela perspectiva da volta do Taleban - uma perspectiva não tão remota, dada a saída acelerada das tropas de coalizão lideradas pelos EUA a partir deste ano e os acordos feitos com membros do antigo regime. Um retrocesso na frágil liberdade conquistada pelas mulheres pós-Taleban soa ainda mais cruel. O sinal amarelo está aceso por todos os lados, e isso faz do Afeganistão um país em ponto morto.

Na tradição das tribos pachto, por exemplo, que povoam a região montanhosa da Federação de Áreas Tribais, berço dos taleban, as mulheres são consideradas parte daquilo que os homens acumulam como propriedade, o que inclui a casa, um pedaço de terra, o tapete vermelho e as almofadas onde Qais dá cambalhotas. A mulher não tem direito a herança. Em vez disso, se ficar viúva, ela é que será herdada pela família do falecido, comumente pelo irmão mais velho dele. Para evitar essa situação, só tendo um filho homem. No entendimento dos anciãos, que no sistema tribal decidem o futuro das famílias sob sua jurisdição, aos homens, mesmo que ainda meninos, cabe proteger o que a família tem - as coisas, a terra, as mulheres.

Um sistema que resiste nessas regiões e ajuda a entender por que as meninas são dadas como pagamento em disputas tribais.

Viúva de um comandante taleban e sem filhos, Balkisa sabia que seria entregue à família do marido, assassinado pelo irmão dela em uma briga. Ela tinha 15 anos quando foi dada em casamento àquele homem. O marido, dois irmãos e o pai dela eram taleban e ela costumava receber 10, 20 integrantes do grupo em casa. Cozinhava para todos e, se o marido não gostava da comida, batia nela, deixava-a um dia inteiro trancada em um quarto escuro. Às vezes ela se atrapalhava na cozinha e atrasava o almoço. “Ele me batia na frente de todos. ‘Por que você me envergonha?’, ele gritava. Aqueles homens matavam gente. Eu sabia de tudo. Eu odeio os taleban”, conta Balkisa, o corpo encolhido sob um manto negro que faz saltar ainda mais seus olhos assustados. Quando o irmão matou o marido, ela assistiu a tudo. O sogro mandou que ela testemunhasse na polícia. “Quando existe uma disputa entre famílias, é sempre a mulher quem paga. Eu seria morta. Eles me matariam para limpar a honra de meu irmão e vingar a morte de meu marido. Então menti. Disse que não sabia de nada.”

Sem seu testemunho, o irmão continuou solto e ela foi presa. Em abril, a organização Human Rights Watch fez um apelo aos EUA para que pressionassem o governo afegão a libertar pelo menos 400 mulheres presas por “crimes morais”. Há vítimas de estupro presas por “praticarem sexo fora do casamento”, vítimas de violência doméstica que fugiram de casa, etc. Sem saber o que fazer com elas, ou como resolver as disputas tribais, a polícia as prende. Os oito anos que Balkisa passou atrás das grades da prisão central de Kandahar foram, ironicamente, também aqueles em que ela se sentiu mais segura. “Eu implorava para que eles me deixassem presa”, afirma. No ano passado, em uma das mais ousadas ações do Taleban, a cadeia foi invadida, as celas abertas e 474 presos libertados de uma vez. Com ajuda de uma companheira de cela, Balkisa fugiu para Cabul e lá foi acolhida por uma organização que tira viúvas das ruas.

Hoje ela vive escondida em um abrigo. Até quando, não sabe. Antes de se despedir de mim, pede ajuda para deixar o país. Tem mais medo de que o Taleban volte que de morrer. “Se eles voltarem, tiro minha vida”, diz com uma voz decidida que não tivera até então em nosso encontro. Com Balkisa vivem 110 mulheres e meninas que conseguiram escapar de suas famílias. Uma em três sofre de transtorno de estresse pós-traumático, contabiliza o diretor do centro, Mohamad Zahed Kushan. “Elas fogem largamente da violência doméstica. Quando não conseguem, muitas se matam.” A autoimolação é outra tradição perversa entre as mulheres do sul dominado pelos taleban.

Caminhar pelas ruas de Cabul é ter a nítida sensação de haver um milênio separando a nova geração de mulheres da capital e as de Kandahar, como Balkisa. Muitas são filhas de ex-refugiados que retornaram ao Afeganistão no rastro das tropas estrangeiras, na esperança de que o país cresceria com os recursos trazidos pelas 41 nações desenvolvidas que desembarcaram no país com as forças de coalizão.

“A água pode voltar a um rio seco, mas os peixes que foram mortos não voltam mais”, diz a frase ao lado de uma mulher de burca sentada nas ruínas de um antigo centro de artes de Cabul. O grafite é da artista plástica Shamsia Hassani, de 25 anos, que passou a usar prédios em ruínas, destruídos pelos sucessivos conflitos, para expressar sua arte. Desde que leu esse poema pela primeira vez, seu tema central tem sido peixes e mulheres sob burcas. “Na era do Taleban elas eram como peixes de um rio seco, sua identidade morta debaixo da burca. A água agora voltou, mas não podemos deixar que pare de fluir. Ou vamos todas morrer de novo”, resume.

Assim como Balkisa, Shamsia também descende de uma família de Kandahar. Mas, quando os taleban tomaram o poder, eles se refugiaram no Irã. Em Teerã, cidade de 14 milhões de habitantes predominantemente jovens, que concentra a elite iraniana, Shamsia pôde estudar - embora sob um regime islâmico, o país vizinho permite educação às mulheres e tem a maioria das vagas em universidades ocupadas por elas. Shamsia tinha 16 anos quando a família voltou ao Afeganistão, em 2002. Pouco depois ingressou no departamento de artes da Universidade de Cabul, onde hoje dá aulas. Seu novo projeto é introduzir o grafite no currículo da universidade. Ela também faz parte de um vibrante grupo de 12 jovens artistas, com quem fundou a primeira Associação de Arte Contemporânea do Afeganistão. Eles se reúnem semanalmente na National Gallery de Cabul, cujo curador conseguiu manter intacto o acervo escondido no porão durante a guerra civil e o consequente regime dos taleban.

As forças de coalizão depuseram o regime e expulsaram os milicianos para as montanhas da fronteira noroeste três semanas após a invasão de 2001. Imediatamente a música voltou às casas, as famílias desenterraram aparelhos de TV, os homens encheram as barbearias. Desde então, muitos avanços foram feitos na legislação, no acesso à saúde e à educação. A nova Constituição, de 2004, garantiu direito de igualdade entre homens e mulheres e milhares delas voltaram à escola, foram trabalhar fora, ganharam postos no governo e voltaram a colorir as ruas com batas e hejabs de cores vivas no lugar das burcas monocromáticas.

Ao longo dos anos, porém, com os EUA distraídos na guerra com o Iraque e após sucessivos erros na política para o Afeganistão, os taleban se reorganizaram em uma guerrilha sofisticada, capaz de realizar ataques simultâneos e coordenados, como o de duas semanas atrás contra embaixadas, o Parlamento e uma base da Otan em Cabul, quando os milicianos conseguiram assegurar postos por 18 horas no coração da capital.

O fortalecimento da insurgência levou o governo afegão e os EUA a abrirem negociações com o Taleban. “Não queremos limpar sangue com sangue”, afirma Mohammed Ismail Qasimyar, um dos líderes do Conselho de Paz formado para intermediar as conversas. “Se o Taleban for reintegrado ao governo poderá haver injustiças, mas a paz não será perdida. Isso não vai acabar do dia para a noite.” Não é o tipo de frase que deixe Balkisa e Shamsia tranquilas. Para mulheres como a deputada Fauzia Kofi, que conquistaram algum espaço na sociedade afegã, o argumento da convivência possível com os radicais não convence. “O Ocidente quer encontrar uma saída para essa guerra que começaram. Mas o governo não está em posição de negociar. Ao contrário, suplica para que os radicais larguem suas armas, oferecendo em troca a libertação de presos, escritório no Qatar, anistia. Assim lhes dá mais poder. O Taleban acredita ter vencido a guerra. Eles não querem dividir o poder, estão brincando com os americanos.” O temor de Fauzia é de que, nessa negociação pouco transparente, os direitos das mulheres, parcamente reconquistados, se tornem moeda de troca. “Nas eleições parlamentares, fomos eleitas além da quota mínima e hoje sentamos para discutir de igual para igual com os mulás, os políticos. No momento em que os taleban voltarem, tudo estará perdido.”

As conquistas das mulheres estão concentradas nas áreas urbanas, mas, de 5 milhões de crianças matriculadas nas escolas, só 1,5 milhão são meninas. No ensino médio, a proporção é de uma aluna para 20 meninos, porque elas casam muito cedo: 57% antes dos 16. Nos territórios da fronteira, que concentra os combates mais violentos, quando não são proibidas de ir à escola pela tradição o fogo cruzado as impede de chegar às aulas. Nas zonas tribais, 6,5 mil mulheres em 100 mil morrem na gestação, a pior taxa de mortalidade materna do mundo.

No Hospital Rabia Balkhe, uma das maiores maternidades públicas de Cabul, 1,1 mil entre 100 mil gestantes morrem antes de ter o bebê ou no parto. Quando questiono a diretora Najila Alami sobre esses números ela me esfrega a realidade afegã na cara: “O que quer que eu faça? Para operar uma mulher neste país eu preciso da autorização do marido”. No ano passado, 23 mil bebês vieram à luz em suas salas escuras, de paredes encardidas e cheiro de mofo. Entre os que perderam a mãe no parto está o bebê Qais.

“Nós conseguimos dar as meninas para casais estéreis porque a infertilidade também não é bem aceita por aqui”, diz Najila. Mas os meninos valem o dobro. “Usamos o dinheiro para comprar coisas de que o hospital precisa. Falta luz na mesa de operação.” Contudo, a escolha mais difícil de Najila no dia a dia é apontar as gestantes que receberão anestesia entre as que agonizam em seus corredores fedorentos. “Eu reservo a anestesia para emergências e, mesmo assim, preciso fazer escolhas. É triste.” Ultrassom só há três e os médicos parteiros são 12, em três turnos - a média de partos diários é de 63. “Pré-natal?”. Najila dá um sorriso sem graça, baixa a cabeça e balança nervosamente de um lado para outro. As médicas ali ganham 8.700 afeganis por mês (US$ 180); Najila, por ser chefe, recebe 9.200 ou US$ 190.

Há seis meses, ela conta, o hospital deixou de receber financiamento externo e a responsabilidade por sua manutenção foi transferida para o Ministério da Saúde. “Desde então, os suprimentos minguaram. Eles não conseguem providenciar o que precisamos. Então, quando aparece um bebê, eu faço o cálculo.” No ano passado, conseguiu entregar 12, a maioria de meninas que engravidaram sem estarem casadas. Sob a burca a barriga cresce sem ser percebida, elas dão à luz e abandonam o bebê na maternidade. “Estupro ou não, o sexo antes do casamento é um crime de acordo com as leis afegãs. Depois, é uma vergonha. Elas vêm com a mãe ou a irmã, têm o bebê e somem sem serem notadas.” diz Najila, sempre contundente.

“Me disseram que a mãe morreu no parto. e o pai era um viciado em ópio que não podia cuidar do menino”, diz Abdul, o pai adotivo. “Quando olhei para o Qais, fiquei apaixonada”, diz a mãe, Shabnam, de 22 anos. Ela está casada desde os 14, escolhida pela mãe de Abdul. Os dois nunca tinham se visto antes do casamento. Nos oito anos em que estão juntos, ela teve duas meninas, hoje com 4 e 6 anos. Ninguém na família deles sabe que Qais é adotado. “Sempre pedi a Deus que me desse um menino. Agora ele me deu.”

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