Ressuscitaram o camarão

Absolvido da acusação de ter virado prato brega, o coquetel de camarão voltou a ser preparado em alguns restaurantes do mundo, inclusive de São Paulo. Não repetirá o mesmo sucesso do passado, até porque constitui uma bomba de calorias (cerca de mil em cada porção) e está na contramão da comida saudável. Entretanto, muitas pessoas se divertem ao saboreá-lo. Cultuam sua imagem antiga e o sucesso que fez nas décadas de 1950, 60 e 70. A ressurreição do coquetel de camarão se deve à revalorização da cultura retrô.

Dias Lopes, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2012 | 03h10

A receita original levava camarão cozido em água ou no vapor e molho golf (maionese, ketchup, molho inglês, conhaque, suco de limão, sal e pimenta). Era preparada da Europa à América e dava um toque de requinte às mesas. Na Inglaterra, transformou-se na entrada mais popular dos anos 1960. Em São Paulo, atraía clientes aos restaurantes Cabana e Parreirinha, no centro.

Na verdade, o coquetel de camarão jamais foi esquecido. Restaurantes tradicionais, como o La Tambouille, sempre o prepararam a pedido de clientes. Mas a taça de cristal para servi-lo, colocada sobre outra cheia de gelo, às vezes com o fundo azulado para sugerir o frescor do mar, quase saiu de cena. Hoje, é fabricada pela Cristallerie Strauss, de Blumenau, em Santa Catarina.

Parceiro dos crustáceos e peixes, o molho golf tem origem incerta. O chef Laurent Suaudeau, de São Paulo, acha que descende do gloucester (maionese, creme azedo ou de leite, suco de limão, erva-doce picada e molho inglês), que tem ascendência britânica e acompanha carnes frias. Enfim, o molho golf pertence à mesma família do anglaise, cambridge, rémoulade, suédoise, tartare, vert, gold ou américaine. O ingrediente que os une é a maionese.

Os argentinos não vão gostar disso. Julgam-se os inventores da receita. Defendem esse primado com a mesma veemência usada para sustentar que seu país foi o berço do doce de leite, de Carlos Gardel e da caneta esferográfica. Garantem que a salsa golf, como dizem, foi criada por Luis Federico Leloir, Prêmio Nobel de Química de 1970, um argentino nascido por acaso em Paris - a mãe se encontrava na França acompanhando o marido em tratamento médico.

No final da década de 1920, o médico e bioquímico estava com amigos em um clube de golfe de Mar del Plata, a 404 quilômetros de Buenos Aires. Serviam-lhe diariamente o mesmo prato de camarões. Cansado da comida invariável, Leloir teria pedido ao garçom que trouxesse maionese, ketchup, molho inglês, suco de limão, sal e pimenta. Misturou e surgiu a receita.

Há variações antigas e novas do coquetel de camarão pelo mundo afora. Na Inglaterra, o chef Gordon Ramsay o relançou há pouco em um dos seus programas de televisão, com modificações importantes no molho golf, lá denominado marie rose sauce. Ele substituiu o ketchup por tomate fresco e acrescentou creme de abacate temperado com limão.

Já os americanos, que o denominam shrimps cocktail e chamam o molho golf de fry sauce, creditam sua autoria à cadeia Arctic Circle, fundada no Estado de Utah. Apontam inclusive o ano da suposta invenção: 1948. Portanto, é impossível concluir em que país nasceu o coquetel de camarão. Que os argentinos, ingleses e americanos se entendam!

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