Restauranteur e cineasta (ou é o contrário?)

Bob Giraldi pilota filmes e panelas

19 de novembro de 2009 | 12h23

Fazer cinema e comandar um restaurante "é tudo a mesma coisa". Quem acredita nisso e faz as duas coisas, às vezes simultaneamente, é o diretor americano Bob Giraldi. Com uma bem-sucedida carreira dirigindo videoclipes como o clássico Beat It, de Michael Jackson, Giraldi abriu um restaurante na década de 80. Deu tão certo que ele virou restaurateur e sócio do chef Jean-Georges Vongerichten. Em 2000, Giraldi aproveitou suas duas grandes paixões, cinema e comida, para fazer Uma Receita para a Máfia (2000), longa independente quase todo rodado em um de seus 11 restaurantes, o Gigino Trattoria, em Nova York. No filme, o restaurateur e bookmaker Luigi Cropa (Danny Aiello) tem de lidar, em única noite, com mafiosos, assassinatos e as exigências do filho, Udo Cropa (Edoardo Ballerini), um chef em ascensão. Além, claro, da egocêntrica crítica gastronômica Jennifer Freely (Sandra Bernhardt) - inspirada em Gael Greene, que foi crítica da revista New York por 30 anos.De Nova York, o cineasta-gourmet, de 70 anos, falou com o Paladar sobre restaurantes, cinema e de por que ele acha que sair para jantar virou um show da Broadway.Como o senhor virou restaurateur?Sempre gostei de comer fora. E durante uma viagem a Positano, na Itália, adorei a comida. Na década de 80, não existiam restaurantes em NY que tivessem pratos típicos da costa amalfitana. Decidi arriscar. O Positano foi nosso primeiro restaurante em Manhattan. Ficou tão popular que abrimos mais um e mais um. Quando vi, tinha virado restaurateur. Hoje tenho participação em 11 casas.Como foi abrir um restaurante sem ter experiência neste ramo?Tinha experiência com teatro e cinema, no fundo, trata-se da mesma coisa: juntar os melhores "atores", criar um grande produto, exibir ao público e esperar as críticas. Jantar fora em Nova York é muito teatral. As pessoas esperam um espetáculo quando vão jantar?As pessoas esperam que as portas se abram à sua frente, querem ver belos atendentes, decoração refinada, trilha sonora agradável. É assustador notar o quanto essa mise en scène é parecida com o cinema. Os chefs viraram estrelas hollywoodianas?Isso começou nos anos 80. Meu sócio, Jean-Georges, era o grande astro. O público ficou totalmente enamorado pelos chefs, porque a maior parte - especialmente as pessoas inteligentes - é fascinada por comida. Acho que os chefs merecem o estrelato. Infelizmente, muitos não são interessantes. Mas onde está a novidade? É a mesma coisa com as estrelas do cinema. Como foi filmar no restaurante?Naturalmente, comi muito bem (risos). Foi complicado, porque quando filmava cenas noturnas, o restaurante abria para o almoço. Quando filmava de dia, abríamos para o jantar. Mas é assim que gosto de trabalhar, em locações. Detesto cenários. Em quem se inspirou para construir o personagem do chef Udo?Em Luigi Celentano (então chef do Gigino, que faz uma ponta no filme) e um pouco em Jean-Georges Vongerichten - e em seu jeito mulherengo. Jean-Georges realmente adora mulheres. E a crítica Jennifer Freely?Foi inspirada nas críticas de restaurante que Nova York já teve. Mulheres que chegavam aos restaurantes com poder, pensando que eram donas do lugar e esperavam ser tratadas como rainhas. Eram um pé no saco. Muito desta personagem foi inspirada em Gael Greene, crítica da revista New York por 30 anos.O filme ainda desperta curiosidade?Muita gente ainda chega ao restaurante pedindo para ver a mesa de Danny Aiello. Brincando, até digo: "Cuidado, quando ele voltar do banheiro, alguém pode levar um tiro (risos)".É mais difícil dirigir um restaurante ou um filme? Pode parecer estranho, mas as duas experiências são exatamente a mesma coisa. Nos dois você lida com egos, humores, sindicatos, contas e, no fim do dia, é preciso entregar um produto bom e criativo. Uma das melhores coisas da minha vida é que, quando fico entediado com o cinema, posso me dedicar ao restaurante. E quando canso do restaurante, posso voltar aos filmes. CÍNTIA BERTOLINO

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