Rethink before RT: ética comunicativa e democracia global

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Heloisa Pait*, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2014 | 14h30

Qual o papel da nova esfera pública global no andamento das relações internacionais? Em que medida os novos meios de comunicação podem trazer uma pluralidade de vozes para a arena pública, influenciando tomadores de decisão e promovendo a paz e o entendimento? Se olharmos o recente conflito em Gaza, a resposta é nenhuma: o antissemitismo explícito nas redes sociais pode ter trazido desgosto às comunidades judaicas em todo o globo, mas nenhum alívio a palestinos em Gaza. 

O brilhante artigo de Gilad Lotan em Global Voices explica o porquê: analisando relações entre tweets e retweets durante o conflito, e ilustrando-as num belo grafo, o autor mostra que apenas uns poucos veículos de comunicação ou blogueiros eram lidos pelos campos, falando grosseiramente, pró-Israel e pró-Palestina. No geral, líamos e compartilhávamos apenas aquilo que não nos questionava. Agíamos como leitores e espectadores, enquanto agora somos mais que meros consumidores de notícia: viramos repórteres e editores. Temos a responsabilidade de verificar a informação, avaliar raciocínios e principalmente refletir sobre o impacto do que dizemos.

Para que possamos compreender melhor nosso papel na teia comunicativa contemporânea, é preciso muita computação, muitos grafos como o de Gilad dedicados à compreensão do uso massivo da internet. Mas não apenas isso: é preciso um esforço moral, educacional, para que nos tornemos verdadeiros cidadãos digitais, caixas de ressonância de ideias e de informação, e não de ódio e estupidez. Esse esforço cidadão não será feito, obviamente, através de conselhos censores. Ele deverá ser feito por jornalistas, educadores, programadores, líderes políticos e pessoas comuns com bom senso e bom coração, que escreverão juntos um código de ética para nossa vida digital.

Se a tecnologia é nova e a escala humana com que trabalhamos é inusitada, essa ética comunicativa deverá ser baseada em preceitos ancestrais, adaptados ao longo dos séculos conforme foram mudando as tecnologias da comunicação. Um deles é o imbatível “não levantarás falso testemunho”. Se na censura o governante decide o que você pode dizer, aqui você é que é instado a refletir antes de repetir acusações ou simplesmente inventá-las. O nono mandamento, atualizado para a internet, seria algo como “Rethink before RT”.

Formas tecnológicas e simbólicas para classificar posts não apenas quanto ao número de leitores e apreciadores, mas também quanto à qualidade da informação ou opinião oferecida seriam bem-vindas, para que nós leitores comuns possamos evitar as armadilhas da desinformação. Sabemos quão decente é um vendedor de presilhas de cabelo no eBay, mas não o quão confiável é uma conta no Twitter que nos informa sobre o desenrolar de dramas envolvendo preciosas vidas humanas.

Gaza nos alertou para o abismo entre discursos circulando na esfera pública e a realidade complexa e dramática no Oriente Médio, mas também no conflito na Ucrânia e em nossas polêmicas nacionais enfrentamos o mesmo problema: como sair da armadilha da reiteração surda e entrar na teia do diálogo, que envolve escuta e ponderação? Aí sim o resultado desse diálogo complexo e inclusivo poderá basear ações democráticas e inteligentes, por parte da sociedade civil e também de governos.

Veja na internet:

Blog Floatingsheep, sobre visualização espacial de uso da internet

Blog de Gilad Lotan, tratando de visualização de dados e política

Artigo na National Geographic sobre a guerra digital na Ucrânia

* Heloisa Pait é professora de Sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Marília

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