Retomadas obras do PAC no Morro do Pavão-Pavãozinho

Confronto entre policiais e traficantes deixou quatro mortos na favela da zona sul do Rio na última semana

Pedro Dantas, Alexandre Rodrigues e Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2008 | 17h57

Quatro dias depois do tiroteio que deixou três mortos e interrompeu as obras do Programa de Aceleração do Crescimento na favela Pavão-Pavãozinho, os empregados voltaram aos canteiros de obras nesta segunda-feira, 17. Houve alguns contratempos - a cozinha, por exemplo, destruída na troca de tiros, continua interditada. A alimentação para 220 funcionários teve de vir de outra obra da empreiteira OAS, na Barra da Tijuca, zona oeste. Algumas salas do escritório da empresa no morro, também atingidos pelos tiros, permanecem interditados.   Veja também: Operação no Pavão-Pavãozinho deixa 4 mortos Imagens do conflito entre moradores e policiais    Os empregados foram orientados a evitar as equipes de reportagens. Um deles disse que havia 10 anos não trabalhava em favelas. "Agora estamos aqui há 9 meses. A gente está se acostumando. Se tem tiroteio ou polícia no morro, a ordem é clara: pára tudo. Só que dessa última vez foi pior", contou o funcionário.   Foto: Marcos D'Paula/AE   As obras no Pavão-Pavãozinho sofreram cinco interrupções por causa da violência. Mas esse funcionário disse que houve outras "paradas breves", que nem sequer são contabilizadas. "As obras estão dentro do cronograma, exceto pelos prédios de apartamento. Mas isso porque o local é de difícil acesso, estamos há uma semana para levar uma grua lá para cima", disse. Ontem, os funcionários levaram cerca de três horas para retirar os carros do principal acesso ao morro, pela Rua Sá Ferreira, para permitir que o caminhão com partes da grua subisse.   No alto do morro, junto ao projeto Criança Esperança, onde os funcionários preparam a fundação dos prédios previstos no projeto, o clima era de tranqüilidade. "Medo de quê? A maioria aqui mora em comunidade. A gente já se acostumou com tiroteio de polícia e bandido", disse um operário. O episódio do Pavão-Pavãozinho é um exemplo do que ocorre nas obras do PAC, tocadas em meio à guerra sem fim entre traficantes e policiais. As mortes e o tiroteio na favela de Copacabana em um canteiro de obras com 20 funcionários trouxeram à tona o debate sobre a estratégia do governo para retomar áreas dominadas pelo crime.   No mês passado, a pedido da secretaria de Segurança, a interdição da Avenida Leopoldo Bulhões para elevação da via férrea - principal projeto para a Favela de Manguinhos - foi adiada. A via, conhecida como "Faixa de Gaza" por conta da violência, teve uma pista fechada para o trânsito somente no dia 9 de novembro.   Favela urbanizada   O governador Sérgio Cabral (PMDB) iniciou seu governo, em 2007, visitando a Colômbia em busca de um modelo para o programa de reurbanização de favelas que os recursos da ordem de R$ 1 bilhão oferecidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva viabilizarão. No primeiro momento, pensou em ocupar para garantir as obras. No entanto, as reações às mortes provocadas pelas operações e a falta de solução para o déficit de efetivo policial mudaram os planos.   Aos poucos, foi ganhando terreno a idéia de que as obras seriam parte da estratégia de pacificação, que não seria mais uma precondição. O governo estadual acredita no apoio da população para as obras com o estímulo da economia das comunidades contratando mão-de-obra local e a antecipação da inauguração de equipamentos que trarão benefícios imediatos.   Nos cálculos de Pezão, em três anos o PAC injetará R$ 10 milhões por mês em infra-estrutura e salários. Muito mais do que movimenta o tráfico. "Na Colômbia, as pessoas que se propuseram a sair do tráfico não foram presas, mas reeducadas para o mercado formal. Nós também temos muitos casos assim. Os movimentos sociais estão trazendo muita gente", diz Pezão.   Chefes do tráfico como Marcinho VP, líder do Comando Vermelho, já enviaram mensagens da cadeia informando a comunidade que não se oporão às melhorias. Até porque contrariar os moradores coloca em risco o sigilo dos negócios. Para Rossino Castro, presidente da Federação das Associações de Moradores de Favelas do Rio (Faferj), o tiroteio da semana passada não liga as obras ao crime. Embora admita a tentativa dos criminosos de se infiltrar entre os operários, acredita que isso não vai prevalecer.   "Se o governo fosse combater o crime antes de fazer o PAC, seria só confronto. Com as obras e, se houver, reais benefícios para a comunidade, vai ser mais eficaz e não vão morrer inocentes. Quando eles (os traficantes) derem por si, a favela já estará ocupada socialmente. Esse é o melhor caminho", disse.   Apesar do otimismo do líder comunitário, o episódio do Pavãozinho não é único. Esta não foi a primeira vez que a violência do tráfico se infiltra nas obras do Pavãozinho. Em abril, o então líder do tráfico local, Adauto do Nascimento Gonçalves, o Pit Bull, de 28 anos, foi preso com um crachá de vigia das obras do PAC. Na semana passada, a polícia acusou o eletricista Josenildo Queiroz de desviar material do PAC do Pavãozinho para obras de traficantes na favela. O governo estadual nega o caso do desvio e sustenta que o controle é rigoroso.   O crime convive com o PAC desde o início do cadastramento de operários. Em fevereiro, nas favelas do Complexo de Manguinhos, na zona norte, as inscrições dos candidatos a operários foram suspensas no primeiro dia depois que uma bala perdida destruiu um computador e feriu uma atendente. Na Rocinha, um PM morreu enquanto candidatos a peões faziam filas pelo emprego. No Complexo do Alemão, na primeira operação após o início das obras, em setembro, a morte de um policial mostrou que o poderio bélico dos traficantes continua o mesmo.

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