Retorno ao caótico relevo do desejo

Romance do português António Lobo Antunes põe em cena personagens paralisados por uma lógica aberta ao acidental

Vinicius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Vladimir Nabokov escreveu uma frase modular que António Lobo Antunes assinaria embaixo: "A originalidade só tem a si própria para copiar." Os bons escritores estão sempre chafurdados na mesma galeria sentimental e circundam, a cada novo livro, uma e outra vez suas obsessões até a morte finalmente aposentá-los. Dessa feita, um novo livro de um bom escritor é um paradoxo: se ele é realmente bom, se ele tem algo a dizer, será apenas mais um passeio à mesma galeria sentimental gasta, ainda que as personagens mudem de nome e os ambientes sejam outros.

Assim, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, último romance de Antunes, já nasce senil - estão ali os mesmos filhos e esposas abandonados de Esplendor de Portugal, a mesma casa desfeita e decadência financeira de Auto dos Danados, a doença progressiva de A Ordem Natural das Coisas, a mente em delírio, seja pela droga, seja pelo ressentimento, de A Morte de Carlos Gardel e Que Farei Quando Tudo Arde? É mais do mesmo - sua leitura sabe a hábito. É inevitável: os bons escritores tornam-se velhos conhecidos e gozam, inclusive, da complacência dedicada apenas aos amigos.

Todo romance de Lobo Antunes é uma tentativa de desenhar uma caótica topografia do desejo - suas personagens vivem em permanente estado de querer atuar, agir, tomar posse, e o que os caracterizam como inconfundíveis filhos de seu criador é a marca comum de estarem impedidos, por diversos motivos, de completar seus sonhos e projetos. Se todo escritor marca seus sentimentos sob a égide de um singular estado de espírito, a marca de Antunes é a inércia - as personagens sabem como mudar, até entendem o que poderiam fazer, mas não realizam, ficam paralisadas por uma lembrança, acidente, acontecimento. O que Antunes faz, ao narrar, é estilhaçar a ordem cronológica em centenas de pequenos fragmentos e ir organizando-a seguindo uma lógica discursiva aberta ao acidente e gravitando, como um mantra, em redor de motivos que vão se repetindo ao longo da narrativa.

Dessa forma, em Que Cavalos..., a lembrança da fazenda produtiva e vigorosa sustenta a litania (e ladainha) das personagens - como eram, como são, e o que poderiam ser. A mãe, fria e seca, febril à beira da morte; o pai, bon vivant, entre mulheres e dívidas de jogos; Ana e João, filhos que desperdiçam dinheiro em drogas e vícios; a criada, Marcília, dona dos segredos da casa; o rancoroso filho bastardo Francisco. Personagens à deriva ao sabor da correnteza soturna das geografias de seus desejos.

É possível afirmar que, em um escritor, tudo que dá certo é diálogo com sua tradição e tudo que dá errado é culpa sua. O que diferencia os autores é que enquanto uns erram bastante os outros erram exageradamente. E, nessa classificação, os últimos são sempre os melhores porque possuem em suas personalidades sentimentos tão singulares que apenas no equívoco e na falha podem compreender aquilo que têm de único. É assim o pequeno segredo sujo: William Faulkner, Thomas Bernhard, Nabokov, Yasunari Kawabata, Imre Kertész, todos falhados, com livros onde páginas deslumbrantes convivem com trechos constrangedores. É essa qualidade tosca que se encontra na obra de Lobo Antunes. Tudo que dá certo em seus livros parece ter dono. A estrutura de seus romances de maturidade é como As Ondas, de Virginia Woolf, reescrita com obsessiva regularidade - anualmente, para ser exato. Há muito na gramática com que Lobo Antunes faz suas personagens narrarem suas próprias vidas que foi tirado (arrancado) de Enquanto Agonizo, de Faulkner.

Uma das influências mais ocultas de Lobo Antunes são os deslumbrantes romances de Mario Vargas Llosa das décadas de 1960-70 - os contrapontos dramáticos, o manejo de material, os dados escondidos, os bruscos cortes temporais. E sua virulência e agressividade, mais presentes em seus primeiros livros, e que se materializam no seu uso de frases exaustivas, parecem um miado petulante diante do seu vigoroso modelo, Louis-Ferdinand Céline. Até sua pontuação - parágrafos que começam em minúsculas, frases interrompidas por diálogos não identificados -, pela qual é visto como um inovador, possui um cultor mais discreto em solo lusitano, o esquecido narrador existencial Vergílio Ferreira. E é o esperado: livros nascem de livros.

No entanto, aquilo de cansativo e redundante em Lobo Antunes é, justamente, o que ele tem de original: as imagens de extremo mau gosto, as metáforas inusitadas, os sentimentos tortos. Há trechos irritantes em Que Cavalos..., nos quais Antunes exagera na repetição, mas aquilo que ele faz o leitor sentir é muito singular e especial e é natural que o escritor exagere naquilo que é tão marcadamente de sua personalidade e colheita.

Excetuando o suposto esforço de leitura, que o próprio Lobo Antunes e os antunetes de plantão superestimam, o que há de mais exigente para quem lê os seus livros é o investimento emocional do leitor para preencher as lacunas que seus narradores vão deixando. É talvez essa a chave do impacto de seu trabalho: uma vez que a estratégia central de Antunes é estilhaçar e fragmentar uma possível coesão do enredo, assim também fragmentando a percepção que se tem das personagens o próprio leitor vai usando seu repertório, seu arquivo, sua própria memória para ocupar os espaços sustenidos pela interrupção. Quando Antunes, então, atira suas pérolas metafóricas, ele acaba obrigando o leitor a ver aquilo que ele próprio emprestou ao romance sob outros olhos, outra perspectiva. E esse é o grande prazer e mistério que emanam dos seus livros: a autoimagem do leitor refratada sob outros prismas.

Vinicius Jatobá é crítico literário

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