Rieslings alsacianos voltam à forma

THE NEW YORK TIMES

O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2011 | 00h17

Pouca coisa me deixou tão feliz ultimamente quanto uma degustação de Rieslings secos da Alsácia. Muitos dos vinhos provados não apenas eram absolutamente adoráveis, mas deliciosamente secos. Estou chovendo no molhado, eu sei.

O que é que um Riesling seco seria senão... seco? Mas todos os que acompanham há muito os vinhos alsacianos sabem que, nos últimos 20 anos, muitos brancos historicamente secos vêm sendo feitos com mais e mais açúcar residual, ficando flácidos, enjoativos, sem equilíbrio. Esses vinhos não têm indicação de doçura nos rótulos, o que deixa consumidores inseguros e frustrados, afastando-os da Alsácia.

A degustação me devolveu o entusiasmo. Os vinhos, minerais, limpos, complexos, às vezes majestosos, seguiram-se num desfile excitante. Se alguém, tendo em vista a história recente, duvidava do potencial da Alsácia para produzir vinhos lindamente marcantes e delineados, a prova estava nos copos à nossa frente.

Talvez "duvidar" seja forte demais. Não é que todos os brancos alsacianos tenham ficado doces. O Trimbach, que lidera brilhantemente os Rieslings, o Clos Sainte Hune (para muitos, o melhor Riesling do mundo), e o mais acessível Cuvée Frédéric Émile, sempre foram decididamente secos. Outros produtores, como Ostertag e Kreydenweiss, também conseguiram manter seus vinhos secos (menos, é claro, os designados como doces).

Não digo que o problema tenha deixado de existir. Os consumidores dos brancos alsacianos devem continuar vigilantes. Poucas semanas atrás encomendei um Riesling Vieilles Vignes 2007, de Albert Boxler, um produtor cujos vinhos são de confiança quanto à secura. Ledo engano. O vinho estava doce, doce demais para as ostras que acompanhou, e não totalmente equilibrado.

E por que os vinhos da Alsácia ficaram mais doces? Em alguns casos, sem dúvida, produtores massificadores e négociants "dirigiram" intencionalmente os vinhos para consumidores que gostam de uma certa doçura, embora garantam preferir vinhos secos. Muitos produtores americanos fazem o mesmo.

Entre produtores mais conscienciosos, os esforços para fazer vinhos de maior concentração e intensidade podem resultar em uvas com altos teores de açúcar. Esses produtores também acreditam em intervir o mínimo possível na vinificação. Assim, eles entende que, se a fermentação parar antes de todo o açúcar ter sido convertido em álcool, essa era a intenção da natureza. De qualquer modo, tornar os vinhos secos levaria a níveis absurdamente altos de álcool. Ou seja, a doçura desses vinhos resulta da melhor das intenções...

Não há nada de intrinsecamente errado com vinhos doces, desde que se respeitem duas condições. Primeira, a doçura não deve vir como surpresa. O sistema alemão de rotulação, por mais arcaico e complicado que pareça, garante que você saiba o que está comprando.

Segunda, como sugeri, os vinhos devem ser balanceados: se um vinho tiver açúcar residual, precisa também ter acidez suficiente para torná-lo refrescante, não banal e cansativo.

Sem querer insistir na comparação com os Rieslings alemães, mas eles flutuam num mundo poroso, etéreo, no qual, se o nível de açúcar residual é alto, o de álcool é baixo, e com acidez suficiente, os vinhos ficam delicados e cristalinos.

Na Alsácia, onde os vinhos são muito mais potentes, mesmo os que têm açúcar residual podem ter muito álcool, o que os faz parecer maiores, mais doces e mais volumosos.

Para combater essa falta de equilíbrio, um dos maiores produtores da Alsácia, a Zind-Humbrecht, alterou sua viticultura na última década, num esforço para produzir uvas que amadureçam mais cedo, com menos açúcar e mais acidez. Olivier Humbrecht, proprietário com o pai, Léonard, disse que as mudanças na vinha compensaram. "Temos hoje níveis mais altos de acidez que nos anos 90, não importando que safras recentes tenham sido mais quentes e precoces."

No fim da década de 90, a Zind-Humbrecht estava sempre entre as últimas a colher na região. Com as mudanças na vinha, disse ele, hoje está entre as primeiras. A marca passou também a incluir uma discreta escala de secura, ou índice, em cada garrafa, em que "1"" significa seco e "5", alta doçura.

Por qualquer estimativa, a Alsácia é um dos grandes pontos do planeta para se produzir Riesling. É bom saber que ela voltou a ser opção.

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