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'Rio+20 não terá resultado instantâneo'

Presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que agenda deve ser realista

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h02

Começar de novo. Mas, desta vez, com foco e expectativas realistas. O prêmio Nobel da Paz Rajendra Pachauri alerta que o mundo "se perdeu" entre a Eco-92, realizada há 20 anos no Rio, e a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que começa no dia 13, na mesma cidade.

Em entrevista exclusiva ao Estado, o indiano pede "realismo" na conferência do Rio e uma agenda clara para que o mundo possa reencontrar o caminho de um modelo de desenvolvimento sustentável. "O Rio é só o começo", disse.

Pachauri é o presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) e um dos principais nomes do ativismo ambiental no mundo. Em 2007, recebeu o prêmio Nobel da Paz ao lado do ex-vice-presidente americano Al Gore, por sua contribuição ao entendimento do impacto das mudanças climáticas. O prêmio também foi um reconhecimento de que a questão ambiental é fundamental para garantir a paz e a estabilidade mundial.

Na época, a esperança era de que o prêmio fortalecesse a ideia de que governos precisam agir e investir em uma transição para um novo modelo de desenvolvimento econômico. Hoje, Pachauri admite que uma maior conscientização em trono do tema ainda precisa ocorrer. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que está em jogo na conferência Rio+20?

Eu pessoalmente acho que o Rio não será o fim do caminho, por nenhuma das considerações que se possa ter. Espera-se que seja o começo de uma viagem global. O Rio é só o início de uma viagem pela qual o mundo passará a focar no desenvolvimento sustentável como modelo. Espero que o planeta comece a se mover em uma direção que garanta a sustentabilidade em seu significado mais amplo.

O que o senhor espera que saia como resultado da conferência?

Os temas que serão debatidos são o acesso à energia sustentável para todos e haverá algum debate sobre economia verde. Mas espero, acima de tudo, que o Rio sirva para criar uma consciência que force governos a tomar passos em uma direção de produzir políticas que nos deem a base de um desenvolvimento sustentável como resultado. Mas, olhe, isso tudo vai levar tempo. Não se pode esperar resultados instantâneos.

Muitos acreditavam nos resultados da Eco-92 e agora vemos que pouco se avançou. Por quê? Eu estive no Rio em 1992. Havia grandes esperanças naquela época. O Protocolo sobre Mudanças Climáticas da ONU foi estabelecido e muitos esperavam que, junto com o Protocolo de Kyoto de 1997, o mundo aprenderia a lidar com a questão das mudanças climáticas. Mas precisamos ver se fomos, de fato, eficientes ao tomar certas decisões. Minha esperança agora é de que a reunião no Rio tenha uma agenda clara e a gente possa adotar ações práticas realistas, e não expectativas fora de nossas capacidades. Se tentarmos fazer muita coisa e se esperarmos muito disso tudo, apenas nos perderemos.

O senhor avalia que as expectativas em relação à Eco-92 foram exageradas?

As expectativas eram altas, de fato. Acho que, também em 1992, o clima que se criou foi muito promissor. Mas, em algum lugar e de alguma forma, nos perdemos. Espero que a Rio+20 agora nos de uma agenda, o mundo possa se concentrar de novo e fazer as coisas que possam fazer a diferença verdadeiramente.

Mas com uma crise mundial e sem avanços na área ambiental, a implementação da sonhada economia verde é viável?

Claramente há um papel brilhante para energias renováveis no futuro. Mas tudo isso dependerá de políticas de apoio. Analisamos no IPCC 164 cenários diferentes de quanto a energia renovável poderia contribuir para a produção de energia no mundo em 2050. Chegamos à conclusão de que o peso dessas fontes poderá variar de 11% a 77%.

Do que dependerá esse resultado em 2050?

Das políticas específicas que os governos adotarem. Portanto, espero que o Rio crie um clima propício para que governos formulem políticas que nos deem, nas próximas décadas, um fornecimento sustentável de energia para aqueles que não têm hoje. E que a conferência permita a criação de uma segurança energética, algo que o mundo precisa. Portanto, a economia verde é viável. Mas precisamos ver se ocorrerá, na prática, formulações de políticas que conduzam a essa transição.

No Brasil, um dos temas permanentes é a preservação da Amazônia. Como o senhor acha que isso tem sido conduzido?

A Amazônia é um grande desafio. Proteger é uma tarefa enorme e tenho certeza que o governo brasileiro sabe disso.

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