Rio vai a reunião sobre violência disposto a ouvir

O governo do Rio vai à reunião desta quinta-feira, 31, para discutir medidas de segurança contra a violência em manifestações disposto a ouvir antes de falar. Interlocutores do governo do Estado ressaltam que, apesar de o convite ter partido do governo federal, o encontro era uma reivindicação antiga da administração estadual. A demora para que se concretizasse é debitada ao crescente ambiente de estranhamento entre PT e PMDB no Estado, após o anúncio da decisão petista de desembarcar da gestão do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) para lançamento do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) à sucessão dele.

WILSON TOSTA E ADRIANO BARCELOS, Agência Estado

30 Outubro 2013 | 18h48

"Fui convidado pelo ministro (José) Eduardo Cardozo (Justiça) para esse encontro em Brasília e vou aguardar o que ele tem a nos dizer para, a partir daí, me pronunciar", afirmou, por meio de nota, o secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame. Ficaram sem resposta outras perguntas da reportagem: sobre as orientações de Cabral para a reunião, as propostas que o governo estadual levaria, a possibilidade de haver "federalização" na investigação dos atos violentos e se o Poder Executivo estadual aceitaria auxílio da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP).

De acordo com um peemedebista bastante próximo do governador do Rio, "é muito cômodo (para a administração federal) deixar acontecer" a sucessão de tumultos de rua que, desde junho, aconteceram na capital fluminense. Só a Avenida Rio Branco, centro financeiro da capital, foi fechada 32 vezes desde junho, e os protestos deixaram um saldo de bancos e lojas destruídos, além de danos à Câmara Municipal, atacada com coquetéis-molotov por mascarados. Nas ruas próximas, aconteceram ataques aos Consulados de Angola e dos Estados Unidos, e houve um baleado, além de dezenas de feridos pela Polícia Militar (PM). Atualmente, a maioria das agências bancárias da região protege as vidraças atrás de tapumes de madeira, sem prazo para volta à normalidade.

Em meio à animosidade que começa a envenenar a relação entre PT e PMDB no Estado, circula entre peemedebistas a tese de que a demora do Executivo federal para agir no Rio teria o objetivo dos petistas de desgastar o partido que será enfrentado na eleição de 2014. Segundo essa "teoria da conspiração", a Presidência da República teria abandonado essa posição por perceber que a questão vai além da briga eleitoral.

Disputas à parte, a disposição do Palácio Guanabara é pôr à disposição da Polícia Federal (PF) os relatórios de inteligência que apontam uma composição heterogênea dos participantes dos protestos. O Estado já anunciou ter detectado a ação de professores universitários e políticos no incitamento às manifestações. Elas, curiosamente, mudam de objeto com relativa rapidez - do "Fora Cabral" à greve dos professores, passando pelo caso do assassinato do pedreiro Amarildo de Souza na Favela da Rocinha -, tendo sempre como foco as passeatas, os confrontos com a PM e as depredações. Esses levantamentos, porém, avançaram pouco no sentido de produzir prova em juízo contra os acusados. Na maioria dos casos, os presos nos tumultos foram soltos porque a Justiça - e a partir de pareceres do Ministério Público (MP) - considerou as prisões sem base legal.

O presidente do PMDB do Rio, Jorge Picciani, disse nesta quarta-feira, 30, considerar que a reunião vem tarde. "Uma coisa é manifestação, outra é vandalismo desenfreado", declarou. Conforme Picciani, como as mobilizações iniciais reivindicavam a melhoria de serviços públicos, os políticos assumiram uma posição de cautela, para não parecer antidemocráticos. "A democracia exige a liberdade de todos", destacou. "Não apenas para um grupo para quebrar, roubar."

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