José Patrício/AE
José Patrício/AE

Robalo em cativeiro já é realidade

Instituto de Pesca montou pacote tecnológico de produção e reprodução do valorizado peixe

Fernanda Yoneya, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2009 | 02h46

Após a experiência com o bijupirá - o primeiro peixe de água salgada a ser produzido no País -, a pesquisa brasileira dá mais um passo importante, com o domínio da tecnologia de produção de robalo em cativeiro. O robalo é um peixe marinho extremamente apreciado, porém cada vez mais raro por causa da pesca predatória.

Há cerca de 15 anos, os pesquisadores do Instituto de Pesca (IP-Apta), da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, Idili da Rocha Oliveira e Pedro Carlos da Silva Serralheiro, estudam técnicas de reprodução, larvicultura e a engorda do robalo-peva (Centropomus parallelus) no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Litoral Sul, em Cananeia (SP), e, agora, com o aperfeiçoamento da tecnologia, já podem difundi-la aos interessados. "Temos condições de treinar e capacitar aquicultores."

 

Segundo os pesquisadores, o robalo tem como principal atrativo o alto valor comercial. "A demanda é maior do que a oferta, por isso o mercado para quem investir na criação é garantido", afirmam. Outro aspecto favorável à criação do robalo em cativeiro é o fato de a espécie ser bastante resistente ao manejo. "Além disso é muito versátil, já que, na fase da engorda, se adapta em ambiente de água salobra, salgada ou doce."

 

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Dois pacotes tecnológicos poderão ser repassados aos interessados: a engorda de alevinos de robalo aos piscicultores de maneira geral e a produção de alevinos em laboratório. Nesse caso, conforme os pesquisadores, como se trata de processo complexo e custoso, a tecnologia de reprodução deve interessar a grandes empresas do setor ou a outras instituições de pesquisa.

SÊMEN CONGELADO

No laboratório do IP em Cananeia usa-se a técnica de crioconservação de sêmen, em que o sêmen é retirado do macho e os espermatozoides são congelados. Quando a desova não ocorre naturalmente, é feita a indução com hormônios. As larvas, extremamente delicadas, alimentam-se de rotíferos e artêmias, organismos-alimentos que são produzidos no laboratório. "Com a crioconservação, temos disponível, continuamente, sêmen de qualidade para a inseminação de óvulos, o que amplia a oferta de alevinos", explicam.

Conforme os pesquisadores, o domínio da tecnologia de reprodução do robalo traz, ainda, a possibilidade de ter o peixe o ano inteiro. Na natureza, ao contrário, o período de reprodução da espécie limita-se a três a quatro meses, no verão. "Avaliamos, por mais de dois anos, o efeito da luz e das condições controladas de temperatura na maturação e desova do robalo e a conclusão é a de que é possível criar as condições ideais para o robalo se reproduzir. É como se fosse verão o ano inteiro." Os pesquisadores do IP também dominaram técnica que permite a mudança de sexo do robalo. "Quanto menor a intensidade da luz, maior a chance de termos lotes apenas de fêmeas", diz Serralheiro. "As fêmeas ganham peso mais rápido."

Idili e Serralheiro trabalham com 20 casais de robalo, instalados em 4 tanques com capacidade de 5 mil litros cada. O moderno sistema de tratamento de água inclui filtro biológico, ozonizador e um equipamento de recirculação de água que impede a descarga de qualquer tipo de efluente - fezes, urina e restos de ração - no ambiente. Em termos de densidade, já foi avaliada população de até 80 indivíduos por metro cúbico de água e os resultados foram bom crescimento e mortalidade zero.

A alimentação dos peixes, carnívoros, está sendo aperfeiçoada, porque não há, no País, ração específica para peixes marinhos. "Estamos aprimorando a ração, testando o que já há no mercado e trabalhando com uma empresa do setor de nutrição", dizem. "Um peixe adulto pesa 5 quilos, com ganho de peso anual entre 700 gramas e 1 quilo."

Para consolidar a cadeia produtiva do robalo no País, o próximo desafio é garantir a produção de alevinos para engorda. "Até pela complexidade do processo de reprodução em laboratório, o interesse do criador deverá ser na engorda. Portanto, temos de garantir o fornecimento, em escala comercial, de alevinos."

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