Roteiro com neve, museus e anjos

Personagem parte em périplo cultural no qual cogitações íntimas se fundem a reminiscências históricas

Alcides Villaça,

30 de outubro de 2010 | 03h51

É possível que alguns romancistas vejam como óbice de seus livros a contingência de precisarem de um leitor. Por que a leitura de O Homem que Vive, de Teixeira Coelho, pode provocar essa impressão? Porque há, em seu narrador (colado à consciência do protagonista, Buel), espelhamentos reflexivos que já se aplicam inapelavelmente à matéria narrada, desenvolvendo-a ao mesmo tempo em que a analisam, fragmentam, interpretam, associam, retomam, permeiam de alusões, citações e remissões. Teriam razão aqueles que, como Adorno, já deram por encerrado o ciclo da boas tramas ficcionais, à falta de experiências históricas que promovam tais representações? Ou estão certos aqueles que, como Susan Sontag, conclamam o romancista a não nos subtrair o prazer de totalizar uma história no plano imaginário, convencendo-nos de sua forma possível?

Não, leitor, não estou me afastando do romance de que devo tratar: uma de suas propriedades está justamente em investigar o que é o real, o que é o normal, qual o simulacro, qual a representação. As palavras mesmas, longe de qualquer inocência, talvez devam ser consideradas como quer Harold Bloom, em citação do romance: "Só podemos encontrar palavras para aquilo que está morto em nossos corações". Mas sabe o narrador que também se pode escrever para não se perder. Anjo, por exemplo, é uma palavra-chave de O Homem Que Vive, e estabelece surpreendentes conexões entre elementos a princípio avulsos, como um quadro de Delacroix, um ensaio de Benjamin, a figuração da morte, a identificação da mulher amada.

O protagonista Buel viaja, visita museus e se hospeda o tempo todo em cidades estrangeiras, inclusive uma transfigurada São Paulo, coberta de neve, ponto de partida, de chegada e referência fixa da narrativa. A viagem essencial, contudo, é a de seus pensamentos e expectativas, é essa a "jornada sentimental" do título do livro; é a sequência de percepções, ora associadas, ora fragmentárias, quase sempre estimuladas pela ação da arte, um dos sinônimos de felicidade. O outro talvez seja o amor, que se corporifica (sem deixar de ser busca) em Valéria.

O roteiro básico da narrativa traça-se na sucessão de experiências e impressões despertadas nessas múltiplas cidades, num périplo cultural em que as cogitações íntimas se fundem com reminiscências históricas, em que os motivos e humores pessoais dirigem a significação de tudo o que é visitado por mais este Ulisses moderno, por este Buel, sobre o qual a certa altura afirma o narrador: "Buel não tem certeza de seu papel como protagonista da história. Ou desta história". Trata-se, de fato, de um indivíduo muito culto, tão culto quanto o narrador e mesmo, diria eu, quanto o escritor: Buel é um expert em arte, é leitor de Bloom e Marguerite Duras, de Benjamin e Baudelaire; jamais poderia alegar desconhecer o que significa, por exemplo, pós-moderno. Ocorrem-lhe dezenas de referências eruditas, que lembram aparato bibliográfico de trabalho acadêmico.

Mas - eis aí o drama? - nem toda a neve que se acumula nas paisagens do romance, neve que se torna uma espécie de personagem onipresente - nem toda essa neve encobre a libido de Buel, o impulso de seus afetos, a vivência das curtas e intensas experiências de felicidade. Fujo o que posso das alegorizações baratas, mas é difícil deixar de ver na neve, sobretudo na inimaginável neve paulistana, uma implacável contraposição à vida calorosa que Buel sabe absorver de uma pintura "com dezenas de limões amarelos", que atualiza seu sentimento de felicidade, numa visita à National Gallery, em Washington, ou da visão igualmente calorosa daquele sol pintado, daquela "grande esfera amarelada que tingia da mesma cor, puxando para o vermelho, toda a imensa entrada da Tate Modern", em Londres. Emenda o narrador: "Não era uma pintura do sol, era como se fosse o próprio sol minimizado e encurralado dentro do prédio (...)". Há uma espécie de permanente debate entre o que é o mais autêntico e o que é o mais estranho, para retomar os termos de uma frase de Wallace Stevens, citada no texto. O problema, para Buel (e para quantos de nós?), está em identificar um e outro, quando se contrapõem a vida e a arte. A epígafre do romance, tomada a Paul Celan, não deixa dúvida quanto a esse embate: "You’re my reality. I'm your mirage".

O romanesco possível, tão difícil de naturalizar-se na ficção de nossos dias, é um desafio que parece ao mesmo tempo aberto e encerrado em O Homem Que Vive: aberto para sempre, pois há a expectativa do anjo (um anúncio, ainda que profano), e encerrado a cada instante, pois a felicidade só cabe num instante (cada fragmento do tempo, cada lance de representação). A jornada sentimental é também um recolhimento (recoletar, propõe o narrador) da cultura, uma sofisticada coleção de lugares, obras e personagens refinadas. Que o amor intervenha, que o anjo se queira possível, que a arte investigue sua parte de verdade é a expectativa de felicidade de Buel. Mas não convém ignorar que a neve não para, e que o narrador talvez a tenha requisitado para nela envolver seu protagonista, isolando-o enquanto o protege.

 

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP

 

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