Luciano Coca/AE
Luciano Coca/AE

Safra na serra

Framboesas, amoras e mirtilos estão em plena colheita na Serra da Mantiqueira

João Carlos de Faria, Especial para o Estado

06 de janeiro de 2010 | 15h17


 

A Serra da Mantiqueira paulista está em plena safra de frutas vermelhas ou frutas finas, como passaram a ser conhecidas as variedades de framboesa, amora e do mirtilo, entre outras espécies. Só no entorno de Campos do Jordão, conhecido pelo inverno rigoroso e o intenso movimento turístico, já se contabilizam pelo menos 30 produtores. A colheita da safra 2009/2010, que vai até março, deve atingir 400 toneladas.

 

As contas são do engenheiro agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael, que em 2003 foi o responsável pela recuperação dos pomares da Fazenda Baronesa, na cidade serrana. Na década de 1950, a fazenda foi a responsável pela introdução da framboesa no Brasil, graças aos seus proprietários Barão e Baronesa Von Leithner, que haviam chegado ao País em 1926. O auge da produção ocorreu entre 1970 e 1990, com a criação da empresa Agroindustrial Alto da Boa Vista, cujo prédio, por exigência da Baronesa Von Leithner, foi construído em estilo europeu, para manter-se em harmonia com a paisagem da fazenda.

 

PRODUÇÃO

 

A fábrica produzia geleias e xaropes de framboesa e amora com a marca Homemade - posteriormente vendida à Cica - e uma bebida destilada de framboesa conhecida como "Eau de Vie", ou "Água da Vida". Com a morte do casal Von Leithner, os pomares foram abandonados e somente duas décadas depois começaram a ser recuperados por Ismael, a pedido do novo proprietário, o empresário Luiz Goshima. "Ele queria preservar a história da baronesa e tinha preocupação ambiental", diz o gerente da fazenda, Ademir Pereira de Oliveira.

 

Ao adquirir a fazenda, Goshima manteve todas as características originais e, em homenagem à antiga dona, adotou a marca Baronesa para identificar os produtos, que voltaram a ser fabricados pela empresa. Ismael fez todo o trabalho de recuperação, com o replantio e a introdução de variedades melhoradas. Cerca de R$ 150 mil foram gastos nessa fase.

 

"Além reativar as lavouras de amora e framboesa, foi introduzido o cultivo do mirtilo e da framboesa negra. A fazenda agora trabalha com pesquisas e novos experimentos, como a framboesa dourada, a grande novidade", diz o gerente. Esta safra deve ser fechada com 10 toneladas de frutas, entre framboesas vermelhas (3 t), framboesas negras (700 quilos), mirtilo (2,5 t) e amora negra (3,5 t), incluindo a produção experimental de 20 quilos de framboesa dourada. O preço médio das frutas varia de R$ 45 (amora) a R$ 150 (framboesa dourada) o quilo para o consumidor. O mirtilo sai a R$ 80 o quilo e a framboesa vermelha custa R$ 60 o quilo.

 

A Fazenda Baronesa tornou-se referência na Serra da Mantiqueira e as frutas finas, especialmente a framboesa, segundo Ismael, estão ocupando o espaço do morango. "A framboesa é o produto mais conhecido e tem venda garantida e não é uma cultura trabalhosa."

 

Em 2006, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) resgatou esses cultivos no Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes com a produção de mudas de frutas vermelhas e outras de clima temperado. Desde então, diz o diretor do Núcleo de Produção de Mudas de São Bento do Sapucaí, Amélio José Berti, vêm sendo divulgados esses cultivos e novas tecnologias, possibilitando uma alternativa economicamente viável para pequenos produtores, pois as frutas têm bom valor agregado.

 

 

Rusticidade das plantas é vantagem

 

O agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael também trabalha na difusão dessas culturas, orientando o plantio e levando novas tecnologias aos produtores. Proprietário do Viveiro Frutopia, em São Bento do Sapucaí (SP), onde tem mais de 30 cultivares de frutas vermelhas e um pomar, que nesta safra deve render cerca de 8 toneladas, ele promove seminários, palestras e orienta produtores de todo o Brasil.

 

"São plantas rústicas que exigem tratos culturais diários, ideais para pequenas propriedades e, portanto, ótimo negócio para a agricultura familiar", afirma o agrônomo. Segundo ele, de tudo o que é produzido no Brasil, 80% vão para a fabricação de geleias, sucos e doces, 10% são consumidos in natura e o restante é utilizado para outros fins.

 

MIRTILO

 

Igualmente entusiasta das frutas vermelhas, o publicitário Saint Clair Vasconcelos, que trouxe as primeiras mudas de mirtilo do Chile, em 1989, é proprietário da Fazenda St. Clair, em Pindamonhangaba (SP). A propriedade onde são cultivadas as frutas fica a quase 2 mil metros de altitude. Esta safra deve render cerca de 15 toneladas, advindas de 20 mil pés cultivados em estufas.

 

A fazenda tem uma área de 2.200 pés de mirtilo e, paralelamente, outras áreas da propriedade foram destinadas para a cultura de blackberry - amora preta ou amora silvestre - e framboesa, frutas que exigem condições climáticas especiais e uma apurada técnica de cultivo.

 

A produção é orgânica e certificada pela Associação de Agricultura Orgânica (AAO). Saint Clair também está se especializando na produção de mudas que, dependendo da quantidade, precisam ser encomendadas com um ano de antecedência.

 

CULTIVOS

 

Em Gonçalves (MG) o empresário Martin Von Simson, que possui 250 hectares, aposta no sucesso dessas frutas e por isso ampliou a plantação de 2.500 para 70 mil pés. Outro grande produtor é a Fazenda Santa Terezinha, em Itatinga (SP), que cultiva 30 hectares de amoras pretas e mirtilo.

 

De acordo com engenheiro agrônomo Ismael, o custo médio para a instalação de 1 hectare de frutas vermelhas chega a R$ 60 mil; a muda pode custar de R$ 2 (framboesa vermelha) a R$ 25 (framboesa dourada), estando ainda incluídos os custos da construção das estufas e o sistema de irrigação.

 

A partir da primeira colheita as mudas que brotam ao redor da planta-mãe podem ser transplantadas para outras áreas, não havendo necessidade de aquisição de novas mudas.

 

 

BERRIES

 

Amora: Bastante rústica e de fácil manejo, é ótima opção para cultivo em pequenas propriedades

Framboesa: Possui mais de 500 cultivares, mas no Brasil apenas três são difundidas. O cultivo é mais delicado que o da amora

Mirtilo: É o blueberry. Para produzir, precisa de 1.100 horas anuais de frio, com temperaturas abaixo de 7 graus

Loganberry: Híbrido de amoras e framboesas. Aromática e saborosa, tem tamanho maior que a framboesa

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