Sai o intelectual e surge o homem

Estou começando a escrever esta coluna sob os piores augúrios.Antero Greco, na sua coluna de sexta-feira, escreveu sobre o mesmo tema, que aliás também tinha sido tratado num artigo, escrito com o habitual brilho, pelo professor José de Souza Martins. Mas finjo que não li nada disso, que desconheço o que essa gente mais inteligente do que eu escreveu, e vou em frente com a maior cara de pau. Ao Antero e ao professor Martins antecipadas desculpas.

Ugo Giorgetti, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Bom, o assunto é Belluzzo O que torna esse tema tão especial? Dirigentes não costumam agir de modo tresloucado? Não costumam protagonizar cenas absurdas, dizer coisas estapafúrdias, se comportar de maneira inconveniente? Sim, mas a maioria esmagadora não é composta de intelectuais. Longe disso. E essa é a questão. O professor Belluzzo causa espanto e escândalo porque se trata de um intelectual.

Para muita gente essa palavra descreve alguém que, através do conhecimento, do estudo e da reflexão, passou para estágio que exclui o irracional, o inesperado ou o desconcertante. Não é bem assim. Frequentemente o delicado véu que separa os intelectuais do resto dos mortais é levantado e se pode ver, mesmo que apenas por dramáticos instantes, o que encobrem.

Num dos filmes mais exemplares dos anos 60, hoje um clássico, há uma sequência particularmente chocante. Um intelectual respeitado, de carreira solidíssima, aparência serena e confiante, sem nenhum motivo aparente, subitamente, dispara tiros de revólver sobre seus filhos, que dormiam em suas camas, terminando por atirar contra si mesmo.

Isso é ficção, mas a realidade às vezes imita a arte, ou quase. Um dia dos anos 80, abro o jornal e leio espantado que um dos intelectuais franceses mais conhecidos, teórico importantíssimo, professor da prestigiada École Normale, tinha acabado de estrangular sua mulher.

O que espanta nessas atitudes é que elas contrariam tudo o que o senso comum espera de um intelectual. É claro que o professor Belluzzo não vai matar ninguém, embora os mais maldosos dirão que tinha intenção de matar bambis. Mas mesmo reduzido às suas devidas proporções o caso Belluzzo só é notável exatamente porque ele é um intelectual.

Nesse sentido o futebol presta um grande serviço à comunidade. É através dele que descobrimos um Belluzzo desconhecido, descontrolado, que, no entanto, vivia e aguardava pacientemente sua vez de aparecer, à sombra da imagem pública do outro Belluzzo, o intelectual da Unicamp. Para recorrer de novo à ficção, que tão bem nos socorre quando se trata de analisar o comportamento humano, aquele que estava na quadra da Mancha berrando como qualquer selvagem torcedor, flagrado por um impiedoso celular, era o Mr. Hyde de Belluzzo. Ele, que durante toda a sua carreira foi sempre o racional economista, acostumado a aconselhar presidentes, examinar as questões friamente e sempre procurar o justo meio entre dois extremos, mostrou seu lado escuro.

O Belluzzo delirante apresentado nos últimos dias é alguém igual a todos nós, sujeito às fraquezas humanas, presa da irracionalidade que levamos dentro de cada um e da qual não podemos escapar. De minha parte me alegro e agradeço ao futebol por me ter revelado esse Belluzzo, meu semelhante e meu igual. Por momentos o intelectual desapareceu e em seu lugar surgiu o ser humano. Ainda bem.

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