Saiba mais sobre a eleição presidencial na Rússia

País elege neste domingo seu terceiro presidente da era pós-soviética e sucessor de Vladimir Putin

Da BBC Brasil, BBC

28 Fevereiro 2008 | 08h45

Os russos vão às urnas no próximo domingo, dia 2 de março, para eleger um novo presidente - o terceiro do país desde o colapso da antiga União Soviética.  O atual mandatário, Vladimir Putin, deixa o cargo após o fim de dois mandatos de quatro anos, seguindo o que prevê a Constituição. Dmitry Medvedev, o candidato que conta com o apoio de Putin, é considerado franco favorito para vencer a eleição. Veja abaixo as principais questões que envolvem o pleito deste domingo. O que está em jogo? No papel, há muito em jogo. De acordo com a Constituição russa, a Presidência é de longe a mais poderosa instituição no Estado russo. Além de ser o chefe de Estado, o presidente é o principal encarregado de estabelecer as políticas de governo. Ele pode vetar leis aprovadas pelo Parlamento, que necessita de uma maioria de dois terços em ambas as Casas para derrubar um veto presidencial. O presidente é também o responsável pela escolha do primeiro-ministro e, apesar de o Parlamento poder rejeitar a escolha, não pode apresentar um candidato próprio. O presidente também indica os chefes dos governos regionais da Rússia. Quais são as regras? Para vencer, um candidato precisa ter mais de 50% dos votos. Se ninguém conseguir isso, os dois candidatos mais votados vão a um segundo turno, 21 dias após o primeiro. Para poder concorrer, os candidatos precisam primeiro ser indicados por um partido com representação no Parlamento, ou coletar a assinatura de 2 milhões de eleitores. A votação ocorre ao longo de 11 fusos horários diferentes no território russo. A abertura das primeiras seções de votação ocorre na manhã de domingo (às 17h de sábado em Brasília) e as últimas são fechadas no início da noite de domingo (15h em Brasília). Cerca de 109 milhões de russos estão habilitados a votar na Rússia ou no exterior. Quem está concorrendo? Dmitry Medvedev Aliado próximo de Putin e atualmente vice-premiê, Medvedev é o candidato do partido governista Rússia Unida. O partido tem uma maioria de dois terços na Câmara Baixa do Parlamento, a Duma. Segundo as pesquisas de opinião, Medvedev poderia receber entre 60% e 80% dos votos. Assim como Putin e muitos dos aliados do presidente, Medvedev, de 42 anos, é originário de São Petersburgo. Mas ele não tem a mesma formação, nos serviços de segurança, e é considerado mais liberal. Apesar de prometer manter as políticas de Putin, ele pede menos intervenção estatal na economia e um foco maior em educação e bem-estar social. Considerado experiente no campo econômico, Medvedev prometeu dar à Rússia "décadas de desenvolvimento estável", criar uma sociedade que cumpre as leis e combater a corrupção.  Gennady Zyuganov Zyuganov, de 63 anos, é o líder do Partido Comunista da Rússia desde 1993 e uma figura conhecida da oposição política no período pós-soviético.  Ele chegou perto de derrotar o presidente Boris Yeltsin nas eleições de 1996 e concorreu contra Putin em 2000. Porém as atuais pesquisas de opinião dão a ele entre 6% e 15% das intenções de voto. Zyuganov é um forte crítico das reformas econômicas na Rússia pós-soviética e descreveu o capitalismo como "bárbaro". Ele rotineiramente critica os empresários russos super-ricos, os "oligarcas". Durante sua campanha, ele pediu salários e pensões mais altas, mais imóveis destinados a pessoas de baixa renda e a nacionalização dos lucrativos recursos naturais da Rússia. Vladimir Zhirinovsky Outro veterano da política russa, Zhirinovsky, de 61 anos, é conhecido pelo seu estilo ousado e confrontador. Ele é o líder do Partido Liberal Democrático da Rússia desde sua fundação, em 1990. Apesar do nome do partido, Zhirinovsky é um forte nacionalista, anti-Ocidente e com visões autoritárias. As pesquisas dão a ele cerca de 10% das intenções de voto. Ele tem um passado de explosões anti-semitas e tem uma tendência a promover factóides políticos com apelo ao sentimento popular. Porém, apesar de sua reputação de dissidente, ele evita criticar diretamente o governo. Sua principal plataforma política é a construção da força militar russa. Sobre a política doméstica, seu manifesto promete aos russos "apenas três projetos - habitação, boas estradas e comida".  Andrei Bogdanov Bogdanov, de 38 anos, é pouco conhecido na Rússia, visto por muitos como um candidato misterioso. Ele lidera o Partido Democrático da Rússia, que recebeu 90 mil votos nas eleições parlamentares de 2007 - pouco além de 1% do total. Porém Bogdanov é o único candidato que conseguiu seu registro por ter coletado mais de 2 milhões de assinaturas. Alguns observadores acreditam que ele está sendo patrocinado pelo governo para tentar dividir o voto da oposição.  Ele descreve seu partido como "conservador liberal". Sua principal proposta é buscar a entrada da Rússia na União Européia. E a oposição liberal russa? Nenhum dos partidos da oposição liberal russa tem candidato nesta eleição. Um dos líderes da oposição, o ex-primeiro-ministro Mikhail Kasyanov, foi impedido de concorrer após as autoridades eleitorais terem dito que as assinaturas que ele havia coletado haviam sido falsificadas. Kasyanov classificou a atitude da Comissão Eleitoral Central de "puramente política", mas o órgão insistiu ter agido de acordo com a lei.  Outro líder opositor, Boris Nemtsov, retirou sua pré-candidatura, dizendo que o resultado da eleição já estava pré-determinado. Ele não chegou a se registrar como candidato. As eleições serão livres e justas? O grupo de observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) descreveu a última votação nacional na Rússia - as eleições parlamentares de dezembro de 2007 - como nem livres nem justas. Na corrida para as atuais eleições, os candidatos de oposição reclamaram que os canais de TV estatais dedicaram grande parte de sua cobertura a Dmitry Medvedev. Haverá observadores internacionais? Cerca de 300 observadores internacionais acompanharão a votação, segundo a Comissão Eleitoral Central da Rússia. Porém o processo foi ofuscado pela decisão da OSCE de boicotar a eleição. A organização disse que as restrições impostas pela Rússia sobre seus monitores tornaria impossível a eles fazerem seu trabalho. A Rússia reagiu com irritação à decisão, acusando a OSCE de fazer "ultimatos". Qual será o papel de Putin após a eleição? Este vem sendo o tema de intensa especulação. Putin desfez ao menos parte do mistério ao aceitar uma oferta para se tornar primeiro-ministro se Medvedev for eleito. Alguns analistas acreditam que a candidatura de Medvedev é apenas uma maneira de Putin manter sua influência após deixar o cargo formalmente, e que o atual presidente continuará, como primeiro-ministro, a comandar o país.     Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Mais conteúdo sobre:
eleiçõesRússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.