Salas da ONU na Suíça foram grampeadas

Algumas das principais salas de negociação das Nações Unidas em Genebra estiveram grampeada nos últimos anos. A revelação foi publicada nesta semana pela revista suíça Hebdo. As salas chegaram a ser usadas para debater a guerra no Iraque e assuntos relativos ao desarmamento de grandes potências. O escândalo, que explicita a vulnerabilidade da ONU, também demonstra a atuação permanente dos serviços secretos nos âmbitos diplomáticos mais elevados.

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

A série de descobertas dos grampos começou na sala C-108, usada por ministros para negociações sobre armas. A primeira descoberta foi feita em abril de 2006, quando eletricistas reformavam o sistema elétrico local. Um deles encontrou um fio solto, que levava para um buraco dentro da parede. Os eletricistas chamaram os seguranças que, por sua vez, trouxeram instrumentos especializados.

Uma máquina de raio X foi usada e ficou comprovado que, de fato, dentro da parede havia um avançado aparelho de escuta. Os investigadores ainda descobriram outro aparelho, em uma sala ao lado.

O assunto foi classificado pelo serviço de segurança da ONU como "confidencial". Os aparelhos - avaliados em US$ 100 mil cada - foram retirados e enviados para uma análise na Grã-Bretanha. Questionada pelo Estado, a assessoria legal da ONU rejeitou dar qualquer tipo de informação sobre a investigação e sobre os eventuais suspeitos.

Uma das conclusões é de que o aparelho era operado à distância e todas as gravações eram transmitidas a uma central distante. Uma das suspeitas é de que o controle da operação estava no estacionamento da ONU, provavelmente em um carro com placa diplomática para não poder ser vistoriado.

Essa não é a primeira vez que um aparelho de escuta é encontrado no prédio. Em 2004, outro sistema foi descoberto numa sala onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente francês Jacques Chirac reuniram-se pela primeira vez, em 2003.

Cansados dos vexames de encontrar aparelhos de escuta em suas próprias salas, a ONU criou um sistema de contraespionagem. O resultado foi a descoberta de outros dois aparelhos de escuta em 2007 em salas usadas para debater o assassinato do ex-presidente libanês Rafik Hariri e mesmo para debates sobre a preparação da guerra contra o Iraque.

Por enquanto, a ONU rejeita falar sobre quem teria colocado os grampos nos locais. Mas o certo, segundo diplomatas que atuam na sede da entidade, é que todos os serviços de inteligência têm interesse em saber o que se discute em algumas reuniões.

A atuação de espiões confunde-se com a própria história da ONU. Em 1945, quando os governos negociavam a criação do órgão, soviéticos e americanos não pouparam esforços no uso de seus serviços secretos.

Washington contratou especialistas em leitura de lábios em russo para captar o que diziam os diplomatas da ex-União Soviética do outro lado da sala e, assim, se antecipar ao que diria o Kremlin nas conferências ou nas negociações bilaterais.

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