Salta um saltenho

Branquinha da Argentina. Nas alturas donde el cóndor pasa a uva autóctone Torrontés reina, embora haja tintos e espumantes na região

Luiz Horta,

11 Março 2010 | 11h33

A paisagem é uma mistura de Novo México com Lua, seja lá o que isto pareça. Mas é o cenário. Pouca vegetação resiste a tamanha altitude: a cidade de Cafayate está a 2 mil metros, a estância Colomé a 2.800. Cactos, pedras, ar puro e rarefeito pela altitude. As construções são muito coloridas e os habitantes mais andinos que portenhos empedernidos.   Todos mascam, como hamsters, folhas de coca, único remédio contra as tonteiras. Qualquer caminhada de três metros parece um passeio de astronauta, pelo esforço. As estradas são quase todas de terra e os cânions se sucedem, pedra erodida elegantemente pelo vento. O céu está bem perto, até mesmo pela sensação de exaustão permanente que a altitude provoca. Mas as videiras não se importaram. Adaptaram-se.   A vinicultura na região é antiga, centenária. Mas só nos últimos 20 anos ganhou destaque. Dali, dos Valles Calchaquíes, sai a melhor Torrontés. Há uva de igual nome na Espanha, mas nenhum exame de DNA da Universidade Davis, Califórnia, confirmou o parentesco. O que mostraram os cientistas foi que ela é um cruzamento espontâneo de Moscatel e Criolla Chica. Surpreendentemente, parece ser mesmo uma variedade de uva vinífera branca autóctone das Américas. Quando tem qualidade e é bem vinificada, apresenta características interessantes - nariz floral, de mel e especiarias, mas seca na boca.   Como Gardel, que talvez não seja argentino, mesmo sendo, e, segundo o mito, cantando cada vez melhor, a Torrontés é argentina, mesmo que talvez não seja, e produz vinhos cada vez mais agradáveis.   Confira os vinhos recomendados:   **** Excelente *** Muito bom ** Bom * Regular                   *** TAHUANTINSUYU 2008, Ernesto Catena (Mistral, tel. 3372-3400) Aroma intensamente floral, de lírios, mel e um pouco de lima. Na boca é igualmente floral, tem uma acidez que faz salivar, um pouco picante, com um toque de pimenta branca. É elegante e rústico ao mesmo tempo, e tem intensa mineralidade. Uma lição do que a Torrontés é capaz, muito além de ser uma uva singela                                             ** COLOMÉ TORRONTÉS 2008, Bodega Colomé (Decanter, tel. 3073-0500) Nariz de mel, flores e um toque de rusticidade muito atraente. Vinho que se assemelha ao lugar de onde veio. Saborosa acidez e frescor, corpo médio, bom de beber e com um ligeiro amargo final                                               ** SAN PEDRO DE YACOCHUYA 2008, Yacochuya (Grand Cru, tel. 3062-6388 ) Extremamente floral, cheiro de uvas verdes e Moscatel. Na boca é um pouco quente, apesar da boa acidez. Longo e agradável. A graça é ser muito seco, apesar dos aromas exuberantes                                                 *ALAMOS TORRONTÉS 2009, Catena Zapata ( Mistral, tel. 3372-3400) Um raro vinho de Catena feito fora de Mendoza. Vinho agradável, da linha bem conhecida chamada Alamos. É curto na boca e não tem uma acidez notável. Falta vivacidade                                                 * CRIOS TORRONTÉS 2009, Susana Balbo (Cantu, tel. 0300-210-1010) Algo de bacon no nariz, como se tivesse tostado de madeira. O rótulo informa que não passa por carvalho. É agradável, mas pouco típico. Parece um bom Chardonnay    

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