Santo de casa não patrocina a fauna nativa

Santo de casa não patrocina a fauna nativa

Órgão governamental se oferece para monitorar onças em região de refinaria localizada perto de Campinas, mas empresas não demonstram interesse

MARCOS SÁ CORREA, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

A cena tem uma virtude rara em registros de armadilhas fotográficas: composição completa, em vez de enquadramento aleatório. Comprime uma história inteira, dirigindo o olhar para o destino da capivara, que, à direita, em primeiro plano, de costas, quase desfeita pelo movimento de fuga, virou borrão marrom, como se já estivesse se desfazendo.

No canto esquerdo vê-se a onça parda, de frente, nítida, com as patas dianteiras no ar e o focinho manso dos predadores que, ao caçar, substituem a ferocidade pela atenção. Estão frente a frente numa trilha de várzea. Atrás da onça, uma placa, pequena, mas legível. Ela diz: PM-19, Petrobrás.

Isso mesmo. O flagrante ocorreu em fevereiro, junto ao Posto de Monitoramento 19 da Replan, a maior refinaria do País. Fica na Região Metropolitana de Campinas, cuja população cresce mais que a de São Paulo. A seu redor, propriedades rurais viram, da noite para o dia, condomínios residenciais. Na hora do licenciamento ambiental, tufos de mata nativa se encaixam nos projetos. Depois, quando um bicho espremido pela expansão se transfere para esses refúgios, moradores que queriam se mudar para perto da natureza reclamam que foram invadidos.

A Replan confina com as terras da Usina Ester, que mantém entre os canaviais 18 mil hectares de reserva. Na refinaria cresce um eucaliptal. Nele, um censo da população silvestre acusou 40% de veados, 38% de capivaras e 11% de tatus. Tudo comida de onça. E presa de caçadores. Uma suçuarana caiu recentemente numa armadilha clandestina. O caçador a matou com seis tiros de revólver. Uma câmera flagrou homens com espingarda. Um deles trajava uniforme de uma firma que atua na Replan.

A região tem onças pardas que aprenderam a viver onde podem. Muitas passam por lá. Outras se estabelecem. Quatro suçuaranas figuram nas estatísticas dos últimos 12 meses. Uma apareceu num condomínio em Vinhedo. Outra, numa área residencial de Rio das Pedras, junto à Unicamp. A terceira foi atropelada na Anhanguera e convalesce. E um macho de 6 anos e 50 quilos entrou há pouco para o rol dos felinos monitorados por colar.

Isso, no quintal de empresas. Mas só quem parece interessada no eucaliptal da refinaria é o Centro de Nacional de Predadores (Cenap). Em nome dele, a bióloga Márcia Rodrigues oferece à Petrobrás o programa, bancando os rádio-colares. Neca. E não por falta de verba, porque ela acaba de lançar o edital de sua nova rodada patrocínios: são R$ 110 milhões.

É JORNALISTA E ESCREVE NO BLOG

MARCOSSACORREA.COM.BR

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