São Paulo sans foie gras?

Entrou em tramitação esta semana na Câmara Municipal de São Paulo o projeto de lei que proíbe a produção e venda do foie gras na cidade. A iguaria, ícone da gastronomia francesa, é elaborada com o fígado gordo do pato ou ganso através de um método conhecido como gavage - em que as aves são submetidas a uma alimentação forçada. Apesar de milenar, a prática é considerada cruel.

Cristiana Menichelli, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2013 | 02h20

O autor do projeto é o vereador Laércio Benko, do Partido Humanista da Solidariedade (PHS). Ele também é vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal de São Paulo, posição que, de acordo com o próprio vereador, aumenta as chances de a lei ser sancionada. O projeto deve passar pela comissão, ser votado pelos vereadores e sancionado pelo prefeito para entrar em vigor. Não há prazo definido para esse trâmite, mas se isso acontecer, lojas e restaurantes paulistanos não poderão mais vender o foie gras nem oferecê-lo nos menus.

A notícia está pegando muita gente de surpresa. Benny Novak, do Ici Bistrô, recebeu-a com tristeza. "(Se a lei for sancionada) será realmente uma pena, uma grande perda cultural e gastronômica ", diz o chef, que vende o escalope de foie gras e uma terrine feita com ele.

O francês Yann Corderon também se surpreendeu com a possibilidade de ter de abolir os dois pratos com foie gras do menu de seu L'Amitié, onde o serve cru com redução de aceto balsâmico e mel sobre uma tartine, como entrada, e com filé mignon grelhado ao molho de vinho de tinto e batata assada.

Para Erick Jacquin, a proposta de proibição do foie gras vai contra o que o povo brasileiro espera dos políticos. "Parece até que esse vereador não acompanhou os protestos que chacoalharam o País algumas semanas atrás." O chef francês diz estar indignado com a falta de incentivos aos cozinheiros e donos de restaurantes.

O gerente-geral do Empório Santa Maria, Tito Paolone, acredita que a lei não mudará o hábito dos que apreciam o foie gras, já que e proibição está restrita ao município de São Paulo. "Só vai dificultar a vida dos gourmets, que terão de adquiri-lo fora dos limites da cidade."

Benko acha que se São Paulo der o exemplo outras cidades seguirão a medida.

A questão é que a produção de foie gras no Brasil é praticamente irrelevante. A Villa Germania, de Santa Catarina, se destaca pela criação do pato moulard - em 2010 eram 170 mil aves por mês, para a produção de magret e foie gras. Mas o mercado brasileiro consome apenas um terço da produção. O restante é exportado.

O projeto de lei:

- Proíbe a produção e a comercialização de foie gras in natura ou enlatado nos estabelecimentos comerciais situados no âmbito do Município de São Paulo.

- A multa para quem cometer a infração na cidade será de R$ 5 mil.

- O projeto de lei do vereador Laércio Benko (PHS) inspirou-se na lei do Estado americano da Califórnia assinada em 2004 pelo então governador Arnold Schwarzenegger. A proibição na Califórnia, no entanto, só entrou em vigor ano passado. Na ocasião, alguns restaurantes como o Thir13en, em Sacramento, driblaram o banimento oferecendo foie gras sem cobrar dos clientes.

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