Sapos alpinistas

Na região onde a Venezuela, o Brasil e as Guianas se encontram existe uma das mais impressionantes formações geológicas do planeta, os tepuis. São montanhas muito altas, de 1 mil a 3 mil metros. Ao contrário da maioria das montanhas, seu topo não é formado por um pico nevado, mas por uma enorme região plana. A vista é maravilhosa. Na parte de baixo, a floresta amazônica, e as encostas dos tepuis, quase verticais e desprovidas de vegetação, surgem no meio da floresta. No topo de cada tepui, novamente a floresta densa.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2012 | 03h02

Os tepuis estão entre as montanhas mais antigas do planeta. Perto delas os Andes são crianças recém-nascidas, com meros 25 milhões de anos.

O que hoje são os platôs dos tepuis era o solo plano de um oceano que secou faz 3 bilhões de anos, quando a vida estava aparecendo no planeta. Por volta de 300 milhões de anos atrás se iniciou um processo de erosão que foi cavando o solo. A região cavada é o local onde hoje encontramos a floresta amazônica. O topo dos tepuis são as áreas que não foram erodidas, o que sobrou do piso do antigo oceano. O formato atual dos tepuis data de 70 milhões de anos atrás, quando os dinossauros ainda estavam por aqui.

Como esses platôs muitas vezes ultrapassam a altura das nuvens, o que se observa de um avião são ilhas de floresta tropical flutuando por sobre as nuvens. É do topo de um desses tepuis que despenca uma das cachoeiras mais altas do planeta, quase mil metros de queda, a Salto Ángel, na Venezuela. Este é o cenário mostrado no filme UP, lançado pela Pixar em 2009.

O interessante é que a flora e a fauna no topo dos tepuis são completamente diferentes da existente na floresta que cobre a região entre as montanhas. Como as encostas dos tepuis são muito íngremes e a altura é grande, faz muitos anos os cientistas propuseram que as plantes e animais que vivem no platô teriam ficado totalmente isoladas do resto dos seres vivos por centenas de milhões de anos, desde a formação dos tepuis. Essa longa separação teria dado origem a uma biodiversidade completamente distinta. Agora esta ideia foi testada. E ela estava errada.

Os cientistas coletaram DNA de espécies de sapos que existem somente no topo dos tepuis e compararam sua sequência com a obtida das espécies presentes na floresta amazônica. Essa comparação permite calcular o tempo decorrido desde que essas duas espécies se separaram. Se a diferença entre os genomas é grande, o ancestral comum é muito antigo; se a diferença é pequena, o ancestral comum existiu faz menos tempo e, portanto, as espécies são mais recentes. É com esse tipo de metodologia que foi determinado, por exemplo, o momento no passado em que a linhagem que deu origem a nós, humanos, se separou da linhagem dos atuais macacos. Se as linhagens que deram origem às espécies de sapo da parte superior tivessem se separado quando os tepuis foram formados, o momento da separação dessas linhagens deveria ter ocorrido 50 ou 70 milhões de anos atrás. Mas o resultado foi muito diferente. O que os cientistas descobriram é que as duas linhagens se separaram há somente 5 milhões de anos, muito depois da formação dos penhascos que separaram os dois ambientes.

A conclusão é que os sapos que hoje habitam os platôs não habitavam o topo dessas montanhas desde a sua formação, mas chegaram ao topo muito depois da formação dos tepuis. Em outras palavras, de alguma maneira, nos últimos 5 milhões de anos, os sapos conseguiram subir as encostas íngremes e conquistaram o direito de viver no topo dos tepuis.

Até agora, os cientistas, influenciados pela dificuldade que eles mesmos encontram em escalar esses penhascos, imaginavam que os sapos que estavam lá em cima sempre haviam estado lá. Esses novos resultados demonstram que na verdade os ancestrais desses sapos de alguma maneira escalaram as montanhas. Eram sapos alpinistas.

* MAIS INFORMAÇÕES: ANCIENT TEPUI SUMMITS HARBOR YOUNG RATHER THAN OLD LINEAGES OF ENDEMIC FROGS EVOLUTION

* É BIÓLOGO

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