Jerônimo Gonzalez/Agência RBS
Jerônimo Gonzalez/Agência RBS

Saques da poupança rural superam depósitos em R$ 1,941 bilhão

Desde 2014, saída da poupança tem ocorrido de forma sistemática, tornando cada vez mais complexa a formulação do Plano Safra

Victor Martins, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2016 | 16h44

BRASÍLIA - Os saques da poupança rural, uma das mais importantes fontes de financiamento do setor agropecuário, não param de crescer. Em abril, as retiradas superaram os depósitos, deixando um saldo negativo de R$ 1,941 bilhão. O resultado, divulgado há pouco pelo Banco Central, é o pior para o mês e o segundo maior prejuízo da série iniciada em 1995. Desde 2014, a saída da poupança rural tem ocorrido de forma sistemática, tornando cada vez mais complexa a formulação de um Plano Safra que permita um financiamento adequado para o setor produtivo.

Os dados do BC mostram ainda que, no mês passado, enquanto os investidores aplicaram R$ 29,075 bilhões, as retiradas totais somaram R$ 31,016 bilhões. Com isso, o patrimônio da caderneta ficou em R$ 146,482 bilhões, redução de 0,46% frente a março. Esse resultado já conta com o rendimento creditado de R$ 940,4 mil no mês passado. No acumulado do ano, o quadro não é diferente. Até abril, o saldo está no vermelho em R$ 4,550 bilhões e, em 21 anos, só perde para o primeiro quadrimestre do ano passado, quando os saques líquidos chegaram a R$ 5,328 bilhões.

A contínua e acentuada deterioração da caderneta se dá por conta da piora do cenário econômico, com a alta da inflação e do aumento do desemprego. Além disso, outros investimentos se tornaram mais atrativos ao apresentarem rentabilidade maior. A remuneração da poupança é formada por uma taxa fixa de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR) - esse cálculo vale para quando a taxa básica de juros (Selic) está acima de 8,5% ao ano e atualmente está em 14,25% ao ano.

Crédito. Esse recuo na caderneta de poupança ocorre em meio ao lançamento de um Plano Safra controverso, voltado para o ciclo 2016/2017, e que sofreu críticas de não ter tido participação do setor produtivo na elaboração. Também foi alvo de questionado e acusado de ser lançado às pressas como parte da estratégia do Palácio do Planalto de gerar fatos que permitam ao governo fazer a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, gestão sob risco de acabar na próxima semana caso o Senado aprove a admissibilidade do impeachment.

A proposta deste Plano Safra, anunciada ontem pela presidente Dilma Rousseff e pela ministra Kátia Abreu, prevê a disponibilidade de R$ 143,750 bilhões em financiamentos a juros controlados.  Pelo menos R$ 10 bilhões desse total podem vir de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), caso um mudança na regra desse produto seja aprovada e os bancos consigam emitir papéis conforme as expectativas do governo. Até o momento, o Conselho Monetário Nacional (CMN) não se reuniu para aprovar as medidas que foram anunciadas ontem e, para que elas possam valer, dependem da autorização do conselho que é formado pelos ministros da Fazenda (Nelson Barbosa), Planejamento (Valdir Simão) e Banco Central (Alexandre Tombini).

Na safra atual, o ritmo de contratações usando essas letras como funding ficou aquém das projeções iniciais. O custo desse plano também aumentou, tanto para os produtores quanto para os contribuintes. Os subsídios a serem desembolsados pelo Tesouro Nacional subiram em R$ 1 bilhão, para R$ 6,2 bilhões, como antecipou o Broadcast Agro. Mesmo com esse aumento dos gastos para bancar o Plano Safra, a taxa para os produtores subiu 0,75 ponto porcentual em todas as linhas. Para integrantes do governo, no entanto, esse custo pode cair.

Diante da expectativa do mercado de que a taxa básica da economia (Selic) recue mais a frente, a necessidade de equalização de juros nessas operações também pode diminuir. Uma fonte, no entanto, observa que essa expectativa de queda no custo do plano safra é “exercício de futurologia” e ainda é cedo para definir qualquer cenário, sobre tudo diante da possível troca de governo nas próximas semanas. 

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