Scherer foi vítima de revolta massiva contra a Cúria

Cenário: Jamil Chade

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h06

Odilo Scherer foi vítima de uma revolta massiva de cardeais contra a Cúria, que apostaram em uma reforma na Igreja. Na conclave, o brasileiro era considerado um dos favoritos, e um grupo de cardeais foi mobilizado para apoiar sua candidatura. Mas, diante de sua proximidade com o secretário de Estado, Tarcísio Bertone, a Cúria e suas posições polêmicas em relação ao Banco do Vaticano, o resultado foi uma correção ao comportamento do grupo no poder.

Desde a renúncia de Bento XVI, a imprensa, vaticanistas e os cardeais passaram a apontar nomes de eventuais sucessores. Angelo Scola era o mais citado, ao lado de Scherer. Na quarta-feira, comentaristas de televisão e os fiéis ficaram em silêncio após escutar o nome do papa. Alguns por não saberem de quem se tratava; outros por espanto diante da escolha.

Tanto Scola quanto Scherer não avançaram como esperavam seus grupos de apoio. Receberam votos importantes no primeiro turno, mas não o suficiente para despontar. Scola teria sido traído por outros italianos, que se recusaram a apoiá-lo.

No caso do brasileiro, os votos que ele obteve na primeira rodada ficaram estagnados. Fontes ouvidas pelo Estado confirmaram que foram os debates acirrados dos últimos dias e a posição de Scherer de proximidade com a Cúria que frustrou o apoio a ele. "Houve uma revolta massiva contra a Cúria, que era vista como a responsável pela crise. Scherer foi a vítima disso", disse uma fonte.

Na segunda-feira, Scherer defendeu o Banco do Vaticano, instituição que se transformou numa espécie de síntese da crise de administração da Santa Sé e da falta de transparência. O banco chegou a ter parte do dinheiro congelado em 2012 pela Justiça italiana. Scherer foi e é membro do conselho.

O apoio a Scola também não se sustentou e dezenas de votos começaram a migrar para Jorge Mario Bergoglio, que, apesar da idade, foi considerado como o nome ideal para superar o embate entre as facções. Em um telegrama confidencial da embaixada americana junto à Santa Sé em 2005, ele era apresentado como um cardeal "capaz de construir pontes entre diferentes grupos e mediar crises".

O argentino recebeu o voto de quem pedia uma ampla reforma na estrutura da Igreja e consideravam que Scola não faria a revolução que esperavam. Também ganhou alguns votos de cardeais menos revolucionários, mas que acreditavam que ele seria um nome de um mediador com a habilidade para contornar crises.

O salto ocorreu quando a delegação de cardeais americanos - em busca de uma reforma na Igreja - indicou nas reuniões fora da Capela Sistina que o apoiaria nas rodadas seguintes de voto e abandonaria Scola, sua opção original.

Com o apoio do americano Timothy Dolan, já considerado o homem forte à sombra do poder, Bergoglio rapidamente atingiu os 77 votos e, em apenas 26 horas, a eleição estava concluída.

O cardeal de Santiago, Javier Errázuriz Ossa, deu pistas ao Estado sobre o que ocorreu. "Bergoglio tinha um ponto que pesava contra ele: a idade. Mas começou a surgir com força e, depois do almoço da quarta-feira, surpreendeu ao aparecer com boas chances", disse. "Foi o que faltava para que houvesse uma migração de votos."

O resultado foi um golpe às previsões de vaticanistas. Marco Politi, um dos principais vaticanistas, admite a surpresa. Mas não acredita que tenha havido erro dos especialistas. Afinal, em 2005, ele já havia sido derrotado na eleição que transformou Joseph Ratzinger em papa e, no Vaticano, não há uma tradição de voltar a concorrer depois de uma derrota. "Houve uma real surpresa nas cinco rodadas de votações. Ficou claro que os cardeais foram buscar uma alternativa fora dos grupos de poder", indicou.

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