Seca barrou progresso dos maias

Os impactos causados pela mudança climática no período clássico da civilização maia tiveram papel determinante para o colapso de um dos povos mais desenvolvidos da América pré-colombiana, aponta estudo publicado nesta sexta-feira pela revista Science. Um levantamento, feito por pesquisadores de diversos países, mostra que os períodos de seca coincidem com o aumento dos conflitos internos que levaram à derrocada da população.

BRUNO DEIRO, Agência Estado

09 de novembro de 2012 | 10h13

Liderado pela Universidade da Pensilvânia, dos EUA, e pelo Instituto de Tecnologia de Zurique, o estudo determinou os p0eríodos chuvosos da região entre 300 e 1000 d.C. - os dados foram obtidos pela análise de estalagmites em antigas cavernas. Com o aumento das secas, a partir de 660, inscrições em monumentos de pedra que faziam referência a guerras internas se tornaram cada vez mais frequentes.

Para os pesquisadores, essa relação serve de alerta para os povos contemporâneos. James Baldini, da Universidade de Durham University, que também participou do estudo, lembra que a mudança nas condições climáticas, ao prejudicar a agricultura, alavancou a crise em uma sociedade evoluída.

"O apogeu e a queda dos maias é um exemplo de uma civilização sofisticada que falhou em se adaptar com sucesso às mudanças climáticas. Períodos de alta nas chuvas aumentaram a produção da agricultura e levaram à explosão demográfica e a uma superexploração dos recursos", afirma o professor. "O clima progressivamente mais seco levou à desestabilização política e beligerância, à medida que os recursos foram esgotados."

As mudanças no clima da região foram resultado de uma alteração na Zona de Convergência Intertropical (cinturão de ventos na linha do Equador que circunda o planeta) e em eventos causados pelo El Niño.

Crise de fé

Especialista em história das Américas, o geógrafo e historiador Marcelo Lambert, do Centro Universitário Metropolitano de São Paulo (FIG-Unimesp), diz que as mudanças no clima tiveram influência, direta e indireta, em diversos níveis. "Era uma sociedade ritual e a seca abalou as crenças. A partir do momento em que não havia chuva, os sacerdotes enfrentaram uma crise de fé", diz.

Segundo Lambert, outro fator que contribuiu para o declínio da agricultura foi o excessivo desmatamento praticado pela sociedade maia. Diretamente exposto ao sol, o solo local ficou ainda mais empobrecido. "Para produzir um degrau de pirâmide eram derrubadas 25 árvores, que eram usadas na combustão, para fazer argamassa. E cada pirâmide tinha até 91 degraus", afirma.

Para o pesquisador, o estudo é coerente por relacionar a seca a um período que abrange o ápice da civilização (de 250 a 900) até o colapso (intensificado até o ano 1000). "Os maias tinham umas das escritas mais complexas das Américas, mas muito se perdeu pela invasão dos espanhóis. Ainda é um desafio entender como entraram em colapso após atingirem um alto grau de desenvolvimento. Mas o estudo mostra que os processos de civilização são pouco conhecido e servem de alerta." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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