Luiz Chaves/Palácio Piratini
Luiz Chaves/Palácio Piratini

Secretário da Fazenda do RS pede 'fim da hipocrisia' com caixa dois

Giovani Feltes tratou tema com naturalidade, mas depois se arrependeu e disse que fala foi 'infeliz'

Gabriela Lara, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2016 | 12h07

PORTO ALEGRE - O secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul, Giovani Feltes, tratou com naturalidade o tema do caixa dois eleitoral - dinheiro gasto em campanhas que não é declarado - em evento esta semana na cidade de Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha. O governo do RS está a poucos dias de votar na Assembleia Legislativa um polêmico pacote de ajuste fiscal, que prevê a extinção de 11 órgãos públicos, a redução de secretarias e a demissão de servidores. Originalmente o tema da conversa era a situação das finanças públicas do Estado, mas, em determinado momento, Feltes falou sobre doação de campanha.

"Anjo não se elege nem vereador em Carlos Barbosa. A gente tem que tirar e afastar essa hipocrisia. Eu tenho dez eleições nas costas", disse o peemedebista, que é deputado federal licenciado. Feltes também já foi deputado estadual, vereador e prefeito de Campo Bom, na região metropolitana de Porto Alegre. Desde o início de 2015, integra o primeiro escalão do governo de José Ivo Sartori, também do PMDB.

"Vou depor contra mim: Quem tem dinheiro de caixa dois e não contabiliza nunca? Jogo do bicho", afirmou Feltes na última segunda-feira a uma plateia formada por empresários. Ele citou também "igrejas" e "tráfico de drogas" como possíveis financiadores de campanha. "Em Novo Hamburgo elegeram um traficante para a Câmara de Vereadores e também conheço outras cidades que elegeram", relatou.

Ao longo da explanação, Feltes reiterou algumas vezes que estava falando em "off", embora se dirigisse a convidados na Associação Comercial e Industrial (ACI) de Carlos Barbosa. As frases foram publicadas pelo jornal "Contexto" da cidade.

Em nota, a assessoria de Feltes justificou que o secretário lamenta que "frases esparsas" e "sem vinculação com o tema principal" tenham ganhado repercussão, "mesmo com o alerta preliminar de que se tratavam de manifestações em caráter reservado". O Broadcast Político teve acesso ao áudio do trecho da palestra em que Feltes relativiza a prática de caixa dois. Num determinado momento, ele exemplifica com uma suposta conversa entre um candidato e um doador.

"[O político dizia] 'me dá uma mão para a campanha?' [o doador respondia] 'Sim, aqui eu tenho R$ 5 mil, R$ 10 mil, R$ 50 mil, mas não coloca meu nome na tua prestação de conta'. Quem dizia que não?", relatou. Depois, ele comentou a nova legislação eleitoral, que proíbe o financiamento empresarial de campanha - e que entrou em vigor no pleito deste ano.

"Tinha que acabar um pouco com essa hipocrisia. Essa [última] campanha foi mais barata, esta campanha foi menos suja, esta campanha foi melhor, sim. Mas ela beneficia quem é mais conhecido. O novo para se eleger agora é mais difícil, já tem um certo desequilíbrio. A renovação fica mais difícil".

Por meio de sua assessoria, Feltes reconheceu que as colocações foram "fora de contexto" e "infelizes". Mas frisou que as expressões foram usadas "de maneira genérica, sem vinculação a um fato objetivo e específico".

O governo gaúcho vem tentando fechar acordo com a base aliada para garantir a aprovação das principais medidas do pacote de ajuste fiscal. Servidores fazem forte oposição aos projetos que dizem respeito à extinção de órgãos públicos e a mudanças nos direitos do funcionalismo estadual. Trabalhadores de diferentes categorias estão protestando nas imediações da Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, na tentativa de pressionar os deputados estaduais.

A estratégia do governo para "vender" o pacote passa por fazer incursões ao interior para explanar a situação fiscal do Estado e explicar detalhadamente as medidas. 

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