Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Segurança no trânsito vai além de evitar acidentes

Mobilidade urbana deve considerar ainda situação de vias e as necessidades de usuários diversos, como mulheres, idosos e crianças

Alex Gomes e Ocimara Balmant, Especiais para o Estado

19 de agosto de 2020 | 05h00

Quando se avaliam atributos necessários para um deslocamento com qualidade, é fácil pensar em conceitos como pontualidade, conforto, rapidez e segurança. Via de regra, no entanto, a segurança é apenas vista como uma viagem sem acidentes ou violência física. Mas não deveria ser assim. Para um entendimento melhor sobre deslocamentos seguros, é preciso um olhar sobre características e necessidades distintas dos grupos que compõem a sociedade, como idosos e mulheres, afirmam os especialistas.

“Devemos pensar na iluminação pública, na mobilidade acessível, cidades inteligentes, urbanização efetiva que valorize e permita que convivamos de modo saudável na cidade”, afirma Melina Risso, diretora de programas Instituto Igarapé. A entidade atua na integração de agendas de segurança, clima e desenvolvimento por meio de cinco grandes temas: segurança cidadã, clima e segurança, consolidação da paz, cidades seguras e segurança cibernética. “Temos de buscar planos diretores inclusivos, que não afastem as pessoas e não criem espaços onde grupos fiquem invisíveis tidos como inimigos.”

Dificuldades para idosos

A realidade dos deslocamentos de pessoas com mais de 60 anos foi a pauta da pesquisa Mobilidade da Pessoa Idosa. Lançado pela Fundación Mapfre em 2019, o estudo com 1.102 pessoas incluiu entrevistas com idosos que sofreram acidentes na cidade, seja por atropelamentos ou quedas em calçadas.

Traumas dos episódios fazem com que essas pessoas se tornem mais isoladas. “Os resultados gerais da pesquisa mostram que o idoso, seja homem ou mulher, tem dificuldades de locomoção e risco de morte maior do que os jovens e adultos. No geral, a percepção do trânsito é bem ruim”, afirma Fátima Lima, diretora de Sustentabilidade e da Fundación Mapfre no Brasil.

Os entrevistados destacaram a precariedade de ruas e calçadas, a falta de respeito dos motoristas e dos usuários do transporte público. Cerca de 30% dos entrevistados afirmam que os condutores de ônibus dirigem de forma agressiva, brusca, o que facilita quedas e acidentes. É frequente também que a pessoa idosa não tenha o acento cedido pelos mais jovens. E quando estão caminhando nas ruas, sentem que condutores de carros e motos não tem tolerância.

A pesquisa se debruçou sobre as condições de infraestrutura urbana e como elas afetam a segurança das pessoas com mais de 60 anos em seus deslocamentos, apontando problemas como obstáculos em calçadas e sinalização que desconsidera as restrições de mobilidade do grupo. A duração dos semáforos para travessia foi considerada insuficiente para 52% dos entrevistados. Em relação às mulheres, há fatores específicos de segurança que podem ter mais peso do que a boa oferta de modais e infraestrutura. “A questão do assédio é predominante. E deve-se considerar as dinâmicas das viagens e suas necessidades, mais complexas e encadeadas, para buscar os filhos na escola e cuidar de um parente doente, por exemplo”, explica Bianca Bianchi Alves, especialista sênior em Transporte Urbano do Banco Mundial.

Mulheres enfrentam mais barreiras

A especialista foi uma das autoras do estudo Por Que Ela se Move?, lançado em 2020 pela instituição e que aborda a mobilidade das mulheres em cidades latino-americanas e fatores que prejudicam a circulação delas nas cidades. A pesquisa, que analisou as formas de circulação em áreas de baixa renda em Buenos Aires, Lima e Rio de Janeiro, constatou que fatores relacionados ao âmbito comunitário, familiar e individual determinam as formas de mobilidade das mulheres e sua segurança. Medo de agressão no transporte e menos acesso a veículos da família foram alguns dos problemas identificados. Essa realidade faz com que o custo financeiro e social incida mais sobre deslocamentos de mulheres em comparação aos de homens.

Mudar esse cenário prepussõe decisões multifatoriais, como aumentar a participação das mulheres na decisão de políticas de mobilidade (muito incipiente), desenvolver mecanismos e tecnologias para facilitar a notificação de casos de assédio, investir em ambientes públicos mais seguros (melhor iluminação e câmeras de segurança) e promover modais que facilitem os deslocamentos em curtas distâncias (como bicicletas), pois tais viagens são comuns na realidade das mulheres que vivem nas periferias.

Traffic calming por uma convivência calma

O sábio conselho “fique calmo”, sem dúvida válido para qualquer pessoa, também é necessário para as cidades. É com isso em mente que planejadores e gestores aplicam o conceito de Traffic Calming, em português acalmamento ou moderação de tráfego. A proposta tem como principal objetivo a redução de acidentes e mortes. Para isso, engloba intervenções viárias, ações educativas e de fiscalização.

A redução de velocidade é fundamental no Traffic Calming. Estudos como o manual Gestão da Velocidade, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU), apontam que as chances de sobreviver a um atropelamento diminuem exponencialmente quanto mais rapidamente estiver o veículo no momento do impacto. Se a velocidade no atropelamento for de 30 km/h, as chances de sobrevivência são de 95%. A 50 km/h, elas caem para 55%; em 60 km/h, se reduzem a 15%.

Para reduzir a velocidade, há medidas de sinalização como instalação de placas e pinturas no solo, além de ações estruturais, como estreitamento de vias, aplicação de pavimentos diferenciados e bloqueios que obrigam os motoristas a ir mais devagar.

Com tais referências, em 2012 a via Exhibition Road em Londres foi reestruturada para dar mais segurança e fluidez aos mais de 11 milhões de pedestres que circulam por lá todo ano.

Para o arquiteto Kenneth Kruckemeyer, sócio do escritório americano de projetos de mobilidade Strategies for Cities, foi um exemplo bem sucedido que resultou em mudança de comportamento. “Como o trânsito de veículos passou a ocorrer em velocidade reduzida, não se dirige supondo ter o direito de avançar sobre quem está no caminho ou se move mais devagar.”

Há intervenções que vão além da mudança de uma via. Em Barcelona, as superquadras agrupam nove quarteirões com áreas restritas a veículos, velocidade máxima de 10 km/h e espaços para convivência de pedestres. O projeto espanhol tem influências no Brasil. Em São Paulo, as Áreas 40 limitam a velocidade em partes de bairros como Moema, Bela Vista e Lapa. As iniciativas paulistanas, no entanto, consistem predominantemente em sinalizações sobre limites de velocidade e de atenção com pedestres e ciclistas, sem obras e intervenções estruturais.

Por fim, o acalmamento de tráfego também proporciona a revitalização de espaços. Com o trânsito das vias mais seguro, os ambientes ao redor se tornam propícios à convivência e circulação de pessoas. De tabela, a medida ajuda comerciantes a atrair potenciais clientes que caminham pelas calçadas. “É uma proposta que funciona para as pessoas e para a economia, e ainda garantem a fluidez”, diz Kruckemeyer.

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