Barry Hall
Barry Hall

Selfie

Vinda de 'self-portrait', ou autorretrato, eis a palavra do ano - um tipo de onanismo visual

J. R. Duran, O Estado de S. Paulo

23 Novembro 2013 | 16h40

Então é assim. Ao final do Grande Prêmio de Monza deste ano, na Itália, do alto de seu segundo lugar no pódio o piloto Fernando Alonso levantou o braço esquerdo e segurando um aparelho celular tirou uma foto dele mesmo. Clique e pronto. Precisar se fotografar, Alonso não precisava. Ainda mais se consideramos que um batalhão dos melhores fotógrafos esportivos do mundo inteiro estava a seus pés para registrar o momento que, diga-se de passagem, se tornou uma constante este ano: tomar vários segundos de diferença de Sebastian Vettel. Talvez para espantar o tédio, ou a frustração, é que ele praticou esse ato de onanismo visual que, acreditem se quiserem, tem uma denominação clara como uma imagem de 41 pixels. É o selfie. É assim que se denomina o exato momento em que alguém se fotografa com um smartphone com o propósito de postar a imagem nas redes sociais.

Na década de 1990 existiu, nos Estados Unidos, um programa de televisão para crianças chamado Pee-Wee’s Playhouse. Na casa de Pee-wee cadeiras falavam, humanos se misturavam com bonecos e robôs, ficção e realidade, tudo em um mundo lúdico e colorido que entretinha crianças e, frequentemente, adultos também. Em um certo momento do programa uma palavra qualquer era escolhida como "a palavra do dia", e a cada vez que ela era pronunciada as luzes se acendiam, as portas do cenário se abriam e fechavam e todo mundo batia palmas.

Para alegria e farra geral o Oxford Dictionary Online (e atenção, não é a mesma coisa que Oxford English Dictionary) decidiu que a palavra do ano é… selfie! E batemos palmas, como crianças de Pee-wee Herman, toda vez que alguém segura o celular com o braço estendido, levemente arqueado, com a lente apontada diretamente para si mesmo, espiando o coração de algum ego no ato de praticar quiromania fotográfica. A cada segundo nasce mais um perfeito selfie.

Em um momento não muito distante as pessoas viajavam e se fotografavam ao lado de monumentos famosos com a clara intenção de provar, na volta para casa, que tinham estado lá (e atire o primeiro celular quem nunca esteve em Pisa e fez uma foto empurrando - ou escorando - a torre). Hoje em dia não é preciso chegar ate a locação - a foto dentro do avião já é um selfie perfeito. A internet está repleta de imagens de pessoas que se fotografam em qualquer lugar, seja no banheiro, no restaurante, chapados na balada, com o bicho de estimação no colo, grávidas, dormindo, ou no reflexo de alguma superfície espelhada, a qualquer momento e sem nenhuma razão. Sempre fazendo cara de pato na tentativa de sugar as bochechas e parecer mais magro.

Os narcisos do smartphone precisam desesperadamente da polinização fotográfica nas redes sociais para que isso possibilite uma autofecundação digital de pixels emocionais. Uma legião de Zeligs desesperados padece da compulsão de se inserir em qualquer realidade para poder existir. Apenas porque se convencionou que se você tem um celular na mão e não está inserido em algum lugar você não existe. O que conta no fim do dia é a historia oficial espalhada na internet, como se a pessoa tivesse de ver sua imagem refletida na rede para ter certeza da própria existência. Nesse sentido os smartphones são o equivalente multiuso do canivete suíço, a perfeita síntese da portabilidade, neste caso repleta de imagens e emoções acumuladas em camadas e mais camadas de aplicativos.

É através dessa atividade de formiga digital que se pode escrever, verdadeiro mosaico de pequenas fotos, uma biografia visual que não requer edição nem leitura para ser entendida, basta apenas ser percebida. E sai dessa percepção a perfeita biografia imaginária. Surreal. Pode ser que as imagens não mintam, mas não se pode esquecer que a câmera sempre pode ser manipulada por um mentiroso de primeira categoria.

É curioso que essa superexposição da privacidade acontece em um momento em que se discute se as biografias devem ser, ou não, autorizadas. Como se sabe, é difícil apagar o passado na internet e o gesto de Fernando Alonso deixa o recado de que, apesar do testemunho de todas as objetivas ali apontadas para o campeão, apenas a imagem dele seria a mais verdadeira de todas. Porque nela Alonso se mostrou como queria, ou imaginava ser visto.

O personagem de Pee-wee Herman era interpretado por um ator chamado Paul Rubens. O programa dele terminou no auge do sucesso quando, ironia do destino, Paul foi pego pela polícia praticando o autoerotismo em um cinema para adultos, na Flórida. De acordo com as leis da cidade de Sarasota, o lugar podia ser restrito, mas isso não significava que ele pudesse chegar às vias de fato. O escândalo nos jornais foi tão grande que o show acabou.

Já, nas redes sociais, a autossatisfação digital do ego não causa espanto. Ela é digna, apenas, de um simples hashtag: #selfie.

E vamos aguardar a palavra do próximo ano.

J.R. DURAN, FOTÓGRAFO E ESCRITOR, É AUTOR DE CIDADE SEM SOMBRA (BENVIRÁ, 2013)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.