Alex Castro/AE
Alex Castro/AE

Sem Fidel nem Libreta

Caem símbolos da antiga Cuba e emerge uma nova relação entre os cidadãos e o Estado, diz americana

CAROLINA ROSSETTI,

23 de abril de 2011 | 11h29

Julia Sweig ocupa lugar especial em Havana. Ela é a primeira pesquisadora americana a ter completo acesso aos arquivos cubanos referentes ao Movimento 26 de julho, insurgência anti-Batista fundada por Fidel e seus companheiros históricos, muitos dos quais figuras presentes no 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, realizado nessa semana. A pesquisa, iniciada nos anos 90 para o doutorado, foi convertida em livro em 2002 com o título Inside the Cuban Revolution, texto em que revela os bastidores da guerrilha e levanta a tese de que a revolução não foi mérito apenas de um grupo de camponeses de Sierra Maestra: o apoio das classes médias urbanas de Havana e Santiago se mostrou crucial para a vitória.

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Nesse livro, inaugural, a diretora do Centro de Estudos Latino Americano, da Council of Foreign Relations, expande a análise e diz que foi justamente essa habilidade de Fidel em cultivar alianças com uma ampla gama de setores da sociedade que permitiu a ele sobreviver e perseverar politicamente desde o declínio do benfeitor soviético. A decisão mais simbólica do congresso, a saída de Fidel da presidência do partido, é entendida por ela como um sinal para os companheiros da velha guarda. "É hora de uma geração se despedir e a próxima assumir seu lugar".

Mais recentemente, em 2009, Julia publicou um livro de perguntas e respostas sobre a política, economia e cultura da ilha, ou, como ela mesma define, um guia de Cuba para principiantes, Cuba: What Everyone Needs to Know, que deve ter segunda edição neste ano. Ainda em 2011, Julia espera divulgar o conteúdo de entrevista inédita que fez com Fidel em agosto, dias depois de ela ter intermediado o contato de Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic Monthly, com o líder cubano. A Goldberg, numa revelação explosiva, Fidel admitiu que "o modelo cubano não funciona nem mesmo para nós". Para Julia, as palavras do líder da revolução repercutiram mais fora que dentro do país, pois são reflexo de algo que todo cubano já sabe e o recente congresso partidário veio reforçar: "É preciso abrir a cortina, apontar os erros e achar uma maneira de trazer o país para o século 21".

Sobre a cruzada reformista de Raúl, ela entende que será difícil, porém necessário e urgente, que a população, acostumada a viver há 50 anos sob a mesma lógica, abrace esse novo socialismo híbrido, em que o Estado é reduzido, os investimentos estrangeiros são bem-vindos e a produtividade passe a determinar as relações de trabalho. "Este congresso marca o início de uma transformação radical da economia e cultura política cubana. A partir de agora não há mais retorno", diz Julia, de seu quarto de hotel em Havana.

Em 2006, Fidel se afasta do poder por questões de saúde. Em 2008, Raúl assume oficialmente a presidência e começa a falar em ‘atualizar o modelo econômico’. No contexto das mudanças recentes em Cuba, qual foi o peso deste congresso?

Uma coisa muito importante que eu não esperava é tamanha ênfase sobre a necessidade de mudar a cultura política. Raúl falou de limitar mandatos pela primeira vez na história de Cuba pós-revolução. No contexto cubano, isso é uma mudança significativa do status quo. Apesar das limitadas mudanças no topo do Politburo, falou-se em renovar os quadros no Comitê Central e mudar a mentalidade cubana drasticamente para que, a partir de agora, atividades econômicas legítimas sob o olhar do socialismo possam incluir o setor privado, cooperativas e, claro, o Estado, mas um Estado muito mais reduzido. Os investimentos estrangeiros não foram debatidos no congresso, mas ao conversar com as pessoas percebi que já existe uma visão clara de que lidar com credores e investidores estrangeiros será crítico para a habilidade de Cuba manter seu modelo híbrido de socialismo democrático de mercado, com "s" e "d" pequenos. Por democrático quero dizer que houve um debate de âmbito nacional para se discutir o futuro do país. Não foi um processo a portas fechadas. O que não significa dizer que foi um processo multipartidário. No limite estabelecido por essas regras do jogo, o processo foi transparente e contou com maior participação do que em qualquer outro momento do passado de Cuba. Este congresso marca o início de uma transformação radical da economia e política cubanas. A partir de agora não há retorno. A agenda de Raúl aponta para a frente.

Fidel não é mais líder do partido que fundou há 52 anos. Ele está fora do jogo político?

Fidel não tem mais papel formal no governo ou no partido, mas tenho certeza que continuará sendo consultado por seu irmão, Raúl. Assim tem sido nos últimos cinco anos desde que ele renunciou à presidência. Fidel retirou sua candidatura para sinalizar o caminho que é esperado dos companheiros da geração histórica que permanecem no comando do partido. Deixou claro que a estrutura, composição dos membros e função da liderança do partido precisam ser substancialmente reformuladas.

Raúl admitiu que sua geração falhou em preparar sucessores e falou de renovação, mas José Ramón Machado Ventura, de 80 anos, foi eleito número 2 do PCC. O regime, apesar da retórica, ainda se apoia na velha guarda e desconfia dos não históricos?

Se tomarmos o discurso de Raúl de terça-feira ao pé da letra, o que ele diz claramente é que essa transição de gerações precisa ocorrer, apesar de reconhecer que o Politburo é composto pela geração fundadora, inclusive Machado Ventura. Mas algumas pessoas no topo do birô vêm da próxima geração de líderes. Um deles é Marino Murillo, de 50 anos. Ele é o czar das reformas e vai ser sua responsabilidade tocar a transformação econômica. Todo mundo está na casa dos 80. Raul também fará 80, em junho. Agora, Machado Ventura tem gerenciado o partido há muito tempo. E toda a crítica que você ouviu sobre o partido nestes últimos dias está, em parte, dirigida a ele. A posição de Machado Ventura como número 2 no Politburo não é permanente. Deve-se estabelecer uma janela de dois a cinco anos, um período de transição. Machado Ventura tomará parte na escolha de quem sucederá a Raúl, mas acho que não será a pessoa a comandar Cuba.

Após décadas sob o mesmo e estático establishment político, como o partido fará para atrair a nova geração?

Se olharmos para a demografia incrivelmente diversa e jovem que compõe o Comitê Central vemos um grande contraste com o Politburo e um imenso esforço para renovar os quadros. Eu vi cada um dos 115 líderes do comitê serem chamados e nomeados e você deve ter visto a demografia: 42% são mulheres, o que é um salto incrível; além disso, 31%, homens e mulheres, são afrodescendentes. E você vê essas mulheres negras serem chamadas uma depois da outra para ser parte do comitê, todas em seus 40 a 50 anos, todas engenheiras, professoras. Elas são as filhas da revolução e estão participando ativamente da política agora. Raúl foi claro ao dizer que o Politburo vai ter a sua composição mudada, começando na conferência de janeiro, para espelhar mais fielmente a demografia d o Comitê Central. Houve um sinal claro no encerramento do congresso: uma geração se despede e outra se prepara para assumir seu lugar.

Raúl é visto como homem que ousa mais no discurso que na prática. Ele anunciou o corte de milhares de empregos, o que vem sendo feito lentamente e não no número proposto. Afinal, qual é o alcance do reformismo de Raúl?

Como você diz, as mudanças estão sendo graduais. A partir de agora acho que o passo será acelerado. O governo cubano está propondo algo extremamente difícil: reestruturar a relação básica do indivíduo com o Estado num prazo de cinco a dez anos. Raúl quer que os pilares dessa transição sejam construídos antes de ele deixar o poder, o que deve ocorrer entre dois e sete anos. A mudança de paradigma em Cuba não é um pacote de restruturação do FMI, onde gastos são suspensos e setores inteiros de trabalho são eliminados. Não. As pessoas precisam de uma estrutura de incentivos para achar novo trabalho. Precisam de dinheiro e de um novo modo de ganhar a vida. Precisam se acostumar com um novo sistema de taxação e de produtividade e com um código de ética do trabalho em que não se possa mais esperar que o Estado forneça tudo. Depois de 50 anos vivendo de uma maneira as mudanças vão demorar um tempo, mas existe um sentimento de urgência de que é preciso começar agora.

Entre as 300 propostas discutidas no congresso teve destaque a questão agrária. De que forma o sucesso do novo modelo econômico de Cuba passa pela reforma no campo?

Há dois anos, quando houve a crise de alimentos e combustíveis e o preço das commodities disparou, o custo disso para um país que importa 80% de todo alimento que consome foi gigantesco. Por isso Cuba passou a distribuir pedaços de terra para usufruto, sem dar os títulos de propriedade da terra, mas permitindo o cultivo. Fazer a produção agrícola viável é uma imensa prioridade, mas ainda não rendeu frutos. Muitos problemas estão sendo atacados somente agora, dois anos depois do início da reforma, como a dificuldade de se conseguir sementes, fertilizantes, ferramentas e sistemas de irrigação - tudo, enfim, que é necessário para tornar a terra produtiva. Somado a isso há o problema no transporte da produção. Em várias regiões de Cuba alimentos estão sendo produzidos, mas não chegam até os consumidores. O sistema inteiro de produção, transporte, consumo e financiamento agrícola ainda precisa melhorar muito. Isso é urgente, porque Cuba precisa reduzir seus custos de importação. É um país que poderia ser muito fértil e produtivo, mas ainda não chegou lá.

O fim da libreta, a caderneta que garante produtos básicos, poderá abalar o apoio do povo ao regime?

A libreta é símbolo da Cuba antiga, não do país que está nascendo hoje. Em Cuba existem muitos níveis de renda. Não faz mais sentido que todos recebam do Estado as mesmas coisas todo mês. Já tem gente trabalhando no setor privado ou que recebe remessas de dinheiro de familiares no exterior e não precisa mais receber arroz, feijão, cigarros e café de graça. O que acontece é que as pessoas vendem os artigos da libreta no mercado negro. O Estado está dando coisas de graça e perdendo dinheiro porque não consegue taxar esses produtos que vão para o mercado negro. Esse é o problema com o setor informal em toda a América Latina. O que o governo cubano tem dito nos últimos dois anos e será reforçado agora é que, em lugar de subsidiar produtos, o governo tentará identificar quem realmente precisa e direcionar a assistência.

A libertação dos prisioneiros políticos no ano passado foi parte de uma estratégia para angariar apoio interno a fim de possibilitar as mudanças econômicas que viriam?

São coisas relacionadas, mesmo que indiretamente. Os prisioneiros políticos se tornaram um obstáculo para o governo diante de atores internacionais com os quais o governo quer ter ficha limpa, como a União Europeia, com a qual Cuba almeja o melhor engajamento possível e, em certa medida, os Estados Unidos. Tirar os prisioneiros políticos da equação ajudou a equacionar a antiga disputa sobre os direitos humanos em Cuba. Existe mais espaço para a liberdade de expressão em Cuba hoje que nos últimos 25 anos, período em que tenho viajado para cá. Se você apenas lê os jornais, isso pode não ser tão claro. Vimos a abertura gradual das telecomunicações, com a instalação de uma linha de fibra ótica, que possibilitou aos intelectuais acessar a internet e criar blogs para relatar o que acontece em Cuba à comunidade internacional. Cuba só agora está reconhecendo que estamos no século 21, a internet e a mídia social chegaram para ficar e o país não poderá ser bem sucedido em nenhuma de suas reformas se os cidadãos não tiverem acesso a essas coisas. A competição de ideias é uma coisa que vamos testemunhar se desenvolvendo em Cuba. O país ainda está aprendendo a lidar com as vozes de dissidência.

A sra. testemunhou a entrevista para o repórter da The Atlantic Monthly em que Fidel disse: "O modelo cubano não funciona nem mais para nós". Qual foi o impacto dessa admissão e como ela está relacionada com o processo reformista em curso?

Quando Fidel disse aquilo o país estava imerso num debate, dentro e fora do governo, de que o modelo cubano não funciona. O que o congresso e os últimos dois anos de governo de Raúl evidenciaram é a necessidade de abrir a cortina, revelar os erros e ter um debate honesto - sob parâmetros cubanos - de como trazer o país para o século 21.Mesmo que nesse socialismo haja um setor privado, cooperativista ou estrangeiro. Tudo isso, nesse novo ambiente, pode ser socialismo, mas num modelo muito diferente. Deixando a retórica de lado, a frase do Fidel teve um impacto muito maior fora de Cuba. Fidel estava apenas pontuando algo de que o país inteiro já tem consciência: é preciso mudar. Ao tentar se corrigir, ele procurou esclarecer que não é porque Cuba está mudando que nós faremos uma concessão ao capitalismo americano. Nós não vamos nos parecer com eles, disse Fidel. E tudo que aconteceu desde então vem no esforço de livrar Fidel de qualquer acusação pela frase. O que vimos nessa semana foi um exercício maciço e público de abandono do antigo modelo cubano e o começo de transformação significativa da economia, política e expectativas que o indivíduo tem do Estado.

E como está a saúde de Fidel?

Minha impressão é que ele está muito bem. Almocei com ele duas vezes, estava muito afiado. Apesar do problema no intestino, ele comia bem e bebeu até um pouco de vinho. Tem uns problemas físicos aqui e ali, mas seu poder de concentração é grande. Estive com ele por várias horas e vi que permanece muito lúcido.

Até que ponto Fidel está de fato sintonizado com as ideias reformistas do irmão?

Fidel está completamente sintonizado com a performance reformista de Raúl. Não há tensão nem diferença de opinião entre os dois até este momento. A agenda reformista de Raúl é a agenda do partido e também a de Fidel.

A relação Estados-Unidos-Cuba avançou sob a administração Obama?

O presidente Obama disse coisas bonitas quando assumiu o governo e efetuou algumas mudanças pequenas, como a maior flexibilização na liberação para americanos viajarem para Cuba. Vale lembrar que Jimmy Carter chegou até a suspender completamente a proibição de viagens e Cuba ainda é o único país a que cidadãos americanos são proibidos de ir sem autorização do governo. A diplomacia entre os dois países é hoje mais civilizada, mas depois de dois anos Obama mantém o embargo econômico. Cuba permanece na lista de Estados terroristas do departamento de Estado americano. A política externa americana em relação a Cuba é a mesma dos últimos 20 anos.

Qual foi o efeito da recente visita de Carter?

Acho que Jimmy Carter foi claro em seus pronunciamentos sobre a falha na política externa americana em relação à Cuba. Mais que qualquer outro presidente americano, exceto Gerald Ford, Carter foi o que mais fez para tentar reparar a relação com Cuba. Por isso, Carter tem estatura para vir conversar com o governo cubano, mas ele não estava aqui numa viagem oficial e Obama e Hillary Clinton não viram em Carter um porta-voz. A questão é que a opinião pública americana está pronta para suspender o embargo e restaurar as relações diplomáticas. O argumento está ganho. Cuba está soltando prisioneiros políticos e embarcando num processo significativo de reforma econômica e política. Mas a administração Obama, tendo em mente o custo político interno que isso poderia ter, nos coloca neste estranho momento em que a opinião pública americana e a atitude cubana estão à frente da administração mais liberal e democrática que os Estados Unidos tiveram desde 2000. Estamos estagnados no momento. Infelizmente, Washington não vê Cuba como uma nação de verdade.

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