Sem medo de expor a sensibilidade

Três escritores encontram na poética lírica o caminho da expressão criativa

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2010 | 00h00

Ricardo Domeneck se considera um poeta lírico. Felipe Nepomuceno faz poesia para se aproximar de suas recordações. Walter Gam usa a palavra para amplificar o sentido das coisas e explorar universos infinitos. Os três se ligam pelo gosto artístico plural: os poetas de cabeceira são apenas uma das fontes de inspiração. Seu processo criativo se baseia no contato com o cinema, a música e as artes plásticas, influências claras em Sons: Arranjo: Garganta, Mapoteca e Ambiente, a nova trinca de livros da coleção Às de Colete, da Cosac Naify.

Outro ponto em comum é que eles não têm receio de expor a própria sensibilidade em sua poética. "A temática amorosa, mesmo que disfarçada, é a mais recorrente nos meus poemas", diz Domeneck, autor de Sons: Arranjo: Garganta (79 págs., R$ 32). Os poemas de amor deste livro vestem outra fantasia, mas ao fim e ao cabo tratam da perplexidade diante dos afetos em confronto. Domeneck revela os seus sentimentos por meio de jogos de linguagem. Ele propõe uma outra consciência para os arranjos de palavra.

"Na década de 80 e 90, por influência de João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos, havia a preocupação de evitar uma poética subjetiva demais, fazendo com que a poesia se tornasse mais seca, preocupada com a descrição objetiva do mundo exterior", diz. Domeneck se sente liberto em Sons: Arranjo: Garganta, pois, quando se formou como poeta, na década passada, sua preferência era pelo arrebatamento e a febre dos afetos.

Sons: Arranjo: Garganta tem duas sombras: Murilo Mendes e John Cage. O poema Janela do Caos, de Mendes, é um dos maiores professores de Domeneck, ao lado das ideias do compositor e escritor americano, "um partidário do acaso". "Eu me interesso por uma aceitação adulta do caos, com a consciência da artificialidade das nossas construções que tentam escondê-lo."

Paulista de 32 anos, Ricardo Domeneck mora hoje em Berlim, onde é DJ e organizador de eventos com artistas multimídias, como Wolfgang Müller. A vivência em outros países em diálogo com ampla formação erudita é um dos elementos formadores de Sons: Arranjo: Garganta. "As referências ditas eruditas não aparecem em meu trabalho como aura de autoridade, para fazer meus poemas integrarem a esfera da alta cultura", diz. "Elas vêm na companhia de referências ao cinema, onde erudito e popular se unem, e do mundo da cultura pop. Se eu cito Wittgenstein e Gertrude Stein, eu também cito Kate Bush e Elizabeth Taylor."

Quanto a ser poliglota, ele diz ser um acaso. "Falo outras línguas por circunstâncias biográficas: estudei nos EUA e vivo há anos na Alemanha. É apenas honesto da minha parte que isso seja integrado em meu trabalho, já que insisto tanto na ligação entre vida e obra e não defendo purismos." As línguas estrangeiras são uma das marcas de Mapoteca (239 págs., R$ 35), de Felipe Nepomuceno. Poemas inteiros podem ser lidos tanto em espanhol quanto em português. "Os textos em espanhol foram escritos assim porque era a única forma que eles tinham de nascer."

Mapoteca, segundo Nepomuceno, paulista de 34 anos, é um livro aberto. Ele reúne material inédito e obras já publicadas, O Marciano, Calamares, Fotonovela e O Aquário. Além dos poemas, traz contos curtos. As cidades descritas no livro são fruto da memória de Nepomuceno. "Conheci a maioria das cidades e com cada uma tenho uma história, às vezes por uma noite, às vezes por cinco anos", diz Nepomuceno, que estudou fotografia na New York School of Visual Arts. "Também estive nas que não estive, de forma imaginária por ser importante na vida de um amigo ou o local de nascimento de alguém que muito me influenciou."

Nepomuceno acredita que as palavras foram inventadas para facilitar o amor. A poesia, por sua vez, ???serve aproximá-lo as recordações, base criativa de sua Mapoteca. Calcada na música e nas artes plásticas, sua formação intelectual inclui experiência com documentários. "Minha poesia é uma consequência de tudo", diz. "Acredito que o que eu escrevo traz uma das visões que tenho sobre o mundo e o estado das coisas. Mas é apenas uma visão. Todos nós temos várias."

O ponto de vista de Walter Gam, mineiro de 25 anos, se encontra na estrutura de Ambiente (79 págs., R$ 32), tributário de noções e ideias das artes plásticas, matéria que o autor estudou na Escola Guignard (UFMG). As lacunas são elementos essenciais. "Acho que os espaços estão dentro do texto criando alguma ilusão, mas também oxigenando, algo como alguns contêineres empilhados, e você sem saber se no meio deles algum está vazio", diz.

Em Ambiente, segundo Gam, a percepção do espaço ao redor está próxima de uma instalação, em que o espectador/leitor pode participar, manipulando-a. "As lacunas talvez se relacionem com os pontos de vista de quem lê, estabelecendo contato, oferecendo projeções dentro e fora e alguma mixagem entre lugares transitórios, atmosferas, obsessões, desejos." A arte contemporânea, diz Gam, é sua grande referência. "Ela me fascina. O que tento fazer está ligado ao que me rodeia, a esses alfabetos. Existem universos infinitos." De fato, a subjetividade de uma alma criadora, sobretudo a dos poetas, não sabe o que significa limite.

Versos

i-d

absorve a incerteza

com uma profundidade

de espaço

parcial

naquela direção,

embora o foco te

faça ignorar,

com um dos olhos

cobertos

(Walter Gam)

Agora me Lembro

Olhava as chaves,

nunca o horizonte.

Merda, melancolia:

tuas chaves, teus pés

caminhando pela parede.

(Felipe Nepomuceno)

Atraso de bússola

Certezas do eixo

de equilíbrio. Querelas

cíclicas, questiúnculas

de modos e modas

em monumentos

biodegradáveis. Ob-

sessão pelo conjugado

como se a língua

adormecesse a

penas em camas

de casal, fêmea

com texto

para o macho

simulador de culinária (...)

(Ricardo Domeneck)

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