Sem papa brasileiro, fiéis se contentam com primeiro pontífice latino-americano

Com a expectativa de ter um papa brasileiro frustrada nesta quarta-feira, após a escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio que será o papa Francisco 1o, católicos brasileiros tiveram como prêmio de consolação a chegada do primeiro pontífice latino-americano da história da Igreja Católica.

ASHER LEVINE E CAROLINE STAUFFER, Reuters

13 de março de 2013 | 19h46

O cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, era apontado como um dos favoritos para suceder Bento 16, que renunciou ao papado no mês passado.

"A Igreja meio que quebrou um tabu ao escolher um latino. Estamos enfrentando uma série de desafios agora e eu rezo para que o papa ajude a trazer nossos jovens de volta à Igreja", disse Deise Cristina, 43, que vai à missa toda semana, na catedral da Sé, centro de São Paulo.

A católica devota Sandra Aparecida Silva, de 38 anos, que vai à missa todos os dias, elogiou a escolha e avaliou que talvez ainda não fosse o momento de um brasileiro chegar ao Trono de Pedro.

"Acho que é muito positivo para a Igreja, porque o novo papa é humilde, próximo às pessoas. Não estou certa se dom Odilo seria a pessoa certa para o que a Igreja precisa agora", disse.

"O fato de ser um latino-americano mostra que a Igreja está se descentralizando. Isso é bom, e o fato de ele não estar entre os favoritos mostra que foi verdadeiramente uma escolha de Deus."

A movimentação na região da mais importante igreja da maior cidade do Brasil, o maior país católico do mundo, era calma, mostrando que a escolha do novo sumo pontífice não mobilizava a comunidade católica paulistana.

"Gosto do fato de ele ser latino-americano, significa que estamos sendo vistos. Mas não me identifico como católica mais. A Igreja não reflete a minha vida", disse a estudante Amanda Morais, de 23 anos, que estava com o namorado "passeando" em frente à catedral.

Nem mesmo a rivalidade entre brasileiros e argentinos impediu que fiéis no Brasil celebrassem a escolha de uma pessoa do país vizinho como pontífice.

"Futebol é uma coisa, e o papa é outra", disse o guardador de carros Júlio Pereira, em Brasília. "Acho que ele (Francisco 1o) trará uma série de coisas boas."

Na sede da Igreja Universal do Reino de Deus, a mais conhecida entidade evangélica do Brasil, na zona sul de São Paulo, a escolha do novo chefe da Igreja Católica também era assunto.

"Eu esperava que fosse um brasileiro. Mas talvez um argentino, um latino-americano, possa fazer as mudanças certas e eu penso em voltar. Minhas raízes são naquela Igreja (católica)", disse Nair de Oliveres Souza, de 54 anos.

"PAPA DE TODOS NÓS"

O fato de um cardeal brasileiro não ter sido escolhido para o cargo mais alto da Igreja Católica também foi minimizado por lideranças católicas no Brasil.

"Nós vemos que o Espírito Santo, através dos cardeais, quis escolher alguém que tivesse esse espírito missionário, evangelizador", disse o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta, ao comentar a escolha do papa Francisco 1o, de 76 anos.

"Eu sempre disse a todos que... o novo papa poderia ser da América Latina, Europa, África ou Ásia, que seria o papa de todos nós... independente de qualquer nacionalidade ou idade."

Na arquidiocese de São Paulo, chefiada por dom Odilo, a escolha do novo sucessor de Bento também foi recebida de braços abertos, segundo o porta-voz da arquidiocese, Padre Cido Pereira.

"É claro, havia no coração dos católicos brasileiros esse sonho, mas diversas vezes dissemos à imprensa: 'o papa que vier será recebido com muito amor e muito carinho, porque nós temos o olhar da fé."

(Reportagem adicional de Daniela Ades, em São Paulo; Sérgio Spagnuolo, no Rio de Janeiro; e Peter Murphy, em Brasília)

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