'Senti o sabor do lixo e não larguei mais'

O alcoolismo e o desemprego do marido empurraram Geruza dos Santos para o trabalho exaustivo no lixão. Pernambucana, com oito filhos, olhava com curiosidade a vizinha que chegava do trabalho com sacola do mercado. "Todo dia era dia de compra. Perguntei para uma das filhas onde a mãe trabalhava e soube do aterro", lembra. Na primeira noite revirando lixo, ganhou o suficiente para comprar "contrafilé, leite, queijo, mortadela, tudo o que os meninos gostavam". "Senti o sabor do lixo e não larguei mais."

RIO , O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h03

Cenário da novela da Rede Globo Avenida Brasil, o cotidiano no Aterro de Gramacho mudou: o número de catadores caiu para pouco menos de 400 e as crianças já não frequentam tanto o local.

Mas não era assim nos anos 80, quando Geruza trabalhava ali. Ela conta que criou mais de 20 crianças, mandadas pelas mães para o aterro. "Aquilo é desumano. Levava para casa", diz Geruza, de 63 anos.

O trabalho era duro, chegava a passar dias ali, dormindo em sofá ou cama que os caminhões despejavam. "Mas nunca morei no lixão. É o último estágio do catador." Também sofria com o preconceito dos vizinhos, por causa do cheiro. "Mas a gente tomava banho, passava desodorante. Na sexta-feira, tinha até manicure para arrumar a gente." C.T.

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