Separando o trigo do joio

Batendo oito concorrentes de peso numa degustação às cegas, a discreta Schneider Original sagrou-se a melhor cerveja de trigo alemã vendida no Brasil. De alta fermentação, cor dourada e farta espuma branca, as weissbiers estão cada vez mais populares

Roberto Fonseca,

18 Junho 2009 | 09h17

Viva a tradição! Em meio a nove marcas alemãs diferentes (a décima estava em falta) que incluíam as mundialmente conhecidas Erdinger e Paulaner, coube a uma pequena cervejaria familiar da Baviera o título de melhor weissbier (ou cerveja de trigo) alemã a chegar aos copos brasileiros. Vendida sem muito alarde no País, a Schneider Original foi a primeira colocada em uma degustação "às cegas" realizada pelo Paladar no fim de maio. Veja também: Trigo de beber A cervejaria que a produz, G. Schneider & Sohn (Schneider e Filhos), foi fundada em 1872 por Georg Schneider I, num momento em que as cervejas de trigo estavam em declínio, perdendo lugar para as recém-criadas pilsners. Apesar disso, a empresa decidiu produzir apenas weissbiers, tradição que se mantém até hoje e a distingue da maioria das marcas escolhidas para a prova - exceto a Erdinger e a Franziskaner; a última só tem cervejas de trigo mas é ligada às marcas da gigante cervejeira ABInbev. A herança da Schneider vai além: os homens da família à frente do negócio, na 7ª geração, recebem o nome Georg Schneider. Embora a Schneider Original seja um pouco mais "bronzeada" que as colegas do estilo, a weissbier padrão é uma cerveja dourada, com farta espuma branca. As semelhanças com a pilsen, porém, acabam aí. A cerveja de trigo é de alta fermentação, possui aromas e sabores tradicionais de banana e cravo e, no estilo hefeweizen, é turva, devido à presença de fermento na garrafa. Nada mais distante da pilsen, uma lager (baixa fermentação), límpida, com aroma de malte e lúpulo e amargor destacado (ou ao menos se espera isso do estilo). Seja nas marcas importadas que chegam por aqui ou nas "crias" de microcervejarias nacionais, o estilo weissbier está cada vez mais popular. Mas isso não quer dizer que todas as cervejas do gênero valham a pena. Como em tudo na vida, é necessário separar o joio do trigo. E, depois, selecionar o melhor do trigo no copo. Prost! MITOS DESFEITOS COMO ESPUMA A prova derrubou um mito cervejeiro. Marca alemã de weissbier mais conhecida no Brasil, a Erdinger ficou em último lugar no teste. Marcelo Stein, da Bier & Wein, importadora da marca, argumentou que a Erdinger tradicional "não tem tipicidade" de weissbier. "Ela é a weissbier que o consumidor de lager toma a noite toda sem se saturar com informações sensoriais." Sugeriu uma nova prova, com outra cerveja da marca, a Erdinger Urweisse. "Ela atende à tipicidade de weissbier". A degustação desfez ainda outro mito: com fama de "cervejaria mais antiga do mundo", a Weihenstephaner ficou em penúltimo. "Foi surpresa. Ela é referência para weissbiers, premiada em todo o mundo", disse Maurício Nogueira, da On Trade, que a importa. "Talvez a amostra provada não estivesse tão ‘fresca’." COMO FOI O TESTE Cervejas - Foram selecionadas e compradas apenas weissbiers importadas da Alemanha e disponíveis no mercado brasileiro, todas dentro do prazo de validade. Jurados - Alexandre Bazzo, da Cervejaria Bamberg; Eduardo Passarelli, cervejólogo, autor do blog Edu Recomenda e sócio da Forneria Melograno; Fabiano Bellucci, beer sommelier do Frangó; e Marcelo Moss, do bar cervejeiro Hops, em Campos do Jordão. Serviço - As cervejas foram servidas "às cegas" aos jurados, no mesmo tipo de copo. Critérios - A degustação teve base nos parâmetros do Beer Judge Certification Program, entidade norte-americana: Aparência (0 a 3 pontos), Aroma (0 a 12 pontos), Sabor (0 a 20 pontos), Sensação na boca (3 a 5 pontos) e Impressão geral (0 a 10 pontos). Cada cerveja poderia atingir até 50 pontos por jurado e 200 no total.   NOTAS DA PROVA SCHNEIDER 159 pontos (79,5% do total) – A cor levemente mais escura que as demais fez jurados "matarem" a charada. Moss, porém, a considerou "no limite" do estilo. Passarelli destacou o frescor da cerveja. "Complexa, o aroma de banana e cravo se mistura aos maltes. Essa é a mais encorpada", afirmou Bazzo. Moss e Bellucci apontaram notas de caramelo.   FRANZISKANER 152 pontos (76,5%) – A maioria dos jurados destacou o equilíbrio dessa cerveja – "acadêmica", como definiu Moss. Mas houve ressalvas: "Os sabores estão em equilíbrio, mas ela é leve. E poderia ser mais aromática", disse Bazzo. "Falta aroma de banana", cobrou Passarelli. Para Moss, o cravo se sobressaiu muito.   LICHER 142 pontos (71%) - Passarelli ressaltou a acidez destacada e um doce/caramelado agressivo. "Boa cerveja, mas o malte caramelo a deixa enjoativa, e o cravo se destaca demais", diz Bazzo. Para Bellucci, ela tem "corpo médio, com acidez no início e cremosidade." Moss criticou: "Não é uma boa representante do estilo."   PAULANER 141 pontos (70,5%) - Teve disputa apertada com a Licher. "Bela aparência, mas aroma e sabor deixaram a desejar", escreveu Moss. "Aparenta já estar um pouco prejudicada pelo tempo", disse Bazzo, que achou a cor "muito bonita". Para Passarelli, faltaram aromas. Bellucci destacou "final leve" da cerveja.   TUCHER 132 pontos (66%) - Moss a definiu como "tímida dentro do estilo", apesar de refrescante. A falta de aromas e sabores marcantes também foi apontada pelos outros jurados. "E poderia ser mais encorpada", avaliou Bellucci. Para Moss e Passarelli, a carbonatação da cerveja também estava excessiva.   JUSTUS 130 pontos (65%) - Foi considerada como leve demais pelos jurados. "Cerveja comercial, faltam aromas e sabores", escreveu Bazzo. Moss, porém, deu a dica: "Boa para iniciantes no estilo." Belluci assinalou "boa carbonatação, mas pouca cremosidade". Passarelli detectou doce, acidez, cítrico e condimentado no sabor.   OETTINGER 129 pontos (64,5%) - A elevada acidez da cerveja foi apontada por todos os jurados."Vai na linha de uma witbier belga", disse Moss. Bazzo notou sinais de oxidação, o que é um defeito. "Talvez sem isso, seria possível perceber melhor aroma e sabor." Passarelli e Bellucci sentiram falta de aromas na bebida.   WEIHEN STEPHANER 120 pontos (60%) - "Falta a característica de weizen em aromas e sabores. Mas tem corpo e carbonatação bons", escreveu Bazzo. Passarelli foi na mesma linha, apontando ausência de frutados. "O malte fica mesmo mais aparente", avaliou Moss. Para Bellucci, trata-se de "cerveja leve, de pouco aroma".   ERDINGER 98 pontos (49%) - Foi unânime nas críticas. "Aromas e sabores muito neutros. Há um mínimo de especiarias, mas falta personalidade", disse Bazzo. "Adstringente, pouco carbonatada e muito leve", avaliou Bellucci. Para Moss, "no sabor, se destaca o ácido, sem as demais características do gênero".

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