Seremos todos gregos?

O crescimento da dívida pública dos países mais ricos resulta de uma combinação de fatores conhecidos: acumulação de direitos sobre renda futura, garantidos pelo Estado; envelhecimento da população; aumento das demandas sobre bens públicos, cuja provisão requer pelo menos a supervisão do Estado; e expectativas frustradas de crescimento das receitas. A esses problemas estruturais se somou um choque fiscal recente. Políticas fiscais anticíclicas, absorção de débitos incobráveis, gastos irremediavelmente crescentes e recessão prolongada pioram as projeções das dívidas públicas em economias que representam mais de 50% do PIB global. Esse é o problema da próxima década.

Dionisio Dias Carneiro*, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2010 | 00h00

Governos que desfrutaram do financiamento externo barato dos últimos anos foram incentivados a postergar os ajustes à nova realidade. Contaram, para isso, com a contribuição da liquidez global abundante e da propensão dos gestores de carteiras a se concentrarem nos riscos de curto prazo.

Com esse foco, projeções otimistas de fluxos de curto prazo substituem as preocupações motivadas com as projeções de balanços, que se tornam assustadores. O desenvolvimento dos mercados de seguro contra default de crédito permitiu prolongar a confiança no uso das poupanças de longo prazo para financiar as dívidas públicas. Há, agora, uma perspectiva de que esses mercados sejam limitados por nova regulamentação.

De fato, nesses mercados, os cálculos dos riscos levam a um comportamento pró-cíclico. Expandem a oferta de financiamento com o prolongamento da bonança e contraem-na quando falta o financiamento. Os eventos de default soberano são raros e, portanto, com distribuições estatísticas que costumam pregar peças nos que usam medidas simples para medir os "prêmios de risco". Esses mercados são, por natureza, altamente "especulativos", pois se baseiam em apostas cujo risco efetivo é muito difícil de mensurar. O resultado é que as métricas se tornam pouco úteis e as decisões instintivas passam a ser dominantes, para o bem ou para o mal dos endividados. Quando é para o bem, todos comemoram os baixos prêmios de seguro. O seguro de uma dívida grega de US$ 10 milhões contra o default custava US$ 12,1 mil em janeiro de 2008. Chegou a custar US$ 134,2 mil no auge da crise de liquidez, em outubro do mesmo ano. Quando voltou o otimismo em relação à crise, em agosto de 2009, às vésperas das eleições, custava US$ 102,7 mil e, em 2 de março custa US$ 342 mil.

Quando esse prêmio é baixo, há um incentivo generalizado para que o sistema político adie a discussão desses problemas até que uma crise paralisante se torne provável. E não há reforma institucional sem ação política capaz de forçar a resistência dos beneficiários da situação anterior.

A combinação de mercados pró-cíclicos com governos pró-cíclicos é parte da nossa realidade atual, que torna as expansões mais prolongadas e as resoluções das crises mais penosas (e adiadas).

A Grécia não pode ser considerada uma exceção. Apenas, dentre as economias mais ricas, a que encontrou um obstáculo quando acabou o financiamento para prosseguir numa trajetória insustentável. A irresponsabilidade fiscal financiada pela bonança externa tem de ser interrompida porque a Grécia não emite moeda, em contraste com Japão, Inglaterra e EUA, por exemplo.

O governo Papandreou usa todos os argumentos para evitar uma derrota política desastrosa anunciada nas ruas de Atenas. Aprovou um orçamento ambicioso, mas pouco crível. Tentou compensar a oposição interna com um contra-ataque à insensibilidade dos demais sócios da zona do euro. Agora se aproveita do desgaste das instituições financeiras para lançar a culpa nos especuladores. Estes, entretanto, só prosperam porque contam com políticos dispostos a encobrir o resultado de suas mágicas.

Em meio aos interesses em conflito dos centros financeiros dos dois lados do Atlântico (e do Canal da Mancha), propostas como a de banir vendas a descoberto não diminuirão as necessidades de ajuste que os governos vão ter de fazer para reverter a dinâmica da dívida pública. Mas uma cruzada contra os especuladores financeiros é bandeira bem mais fácil de levantar para acalmar a multidão do que a má notícia de que todos estão mais pobres do que imaginam. E estarão mais pobres ainda quando tiverem de pagar as contas dos sorridentes políticos inauguradores de novas ilusões. No futuro, mais impostos e/ou mais inflação para sustentar mais do mesmo.

*Dionisio Dias Carneiro, economista, é diretor da Galanto Consultoria e do IEPE/CdG

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