Sexo, mentiras e videotape, no palco 20 anos depois

Play, texto de Rodrigo Nogueira, busca inspiração no filme de Steven Soderbergh

Guilherme Conte, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2010 | 00h00

Em 1989, o diretor americano Steven Soderbergh causou barulho com o filme sexo, mentiras e videotape. O roteiro chegou a ser indicado para o Oscar e Globo de Ouro. Vinte anos depois, aquele olhar cínico e sem concessões sobre o sexo e as relações humanas volta à cena em Play, que estreia hoje no Teatro Nair Bello. Será que a atualidade do texto permanece após duas décadas?

"As discussões permanecem absolutamente contemporâneas", afirma a atriz Maria Maya, que estrela e produz o espetáculo. Ela conta que a ideia de montar o roteiro do filme foi sugerida por Ivan Sugahara, diretor da peça, quando ela procurava textos. Ela então foi a Nova York, em viagem que foi frustrada pelas dificuldades de obter os direitos para encenar o roteiro. "Isso se somou a um desejo que eu tinha de trabalhar com novos dramaturgos cariocas", conta Maria. Daí veio o convite para Rodrigo Nogueira, que escreveu Play inspirado na obra de Soderbergh, que aliás nunca tinha visto. "O resultado não foi uma adaptação nem uma peça baseada no filme, mas sim um texto sobre o filme", diz Maria.

A estrutura básica do roteiro permanece na peça: Sérgio (Rodrigo Nogueira), um homem insatisfeito com seu casamento morno e desapaixonado com Ana (Daniela Galli), entrega-se a um tórrido caso com sua jovem e sensual cunhada Cíntia (Maria Maya). A "estabilidade" desse triângulo amoroso é abalada com a chegada de um velho amigo de Sérgio, César (Sérgio Marone), que na peça é um famoso artista às voltas com um misterioso projeto: filmar mulheres falando sobre suas intimidades e, sobretudo, sexo.

Essa foi uma das criações de Nogueira, indicado para o Prêmio Shell como melhor autor, que permitiu estabelecer um jogo em Play com as fronteiras entre ficção e realidade. "A plateia fica em dúvida sobre até que ponto aqueles são personagens reais ou os personagens do filme", diz Maya. As sobreposições de cena e de falas trabalham com essa ambiguidade.

Um outro recurso presente na montagem deliberadamente reforça esse jogo: o flerte com o audiovisual. Ao longo de toda a peça, diversos depoimentos de mulheres são projetados. Atrizes, anônimas e personagens do espetáculo contam tanto episódios reais como leem textos. Tudo, afinal, está em suspeição; um efeito similar ao obtido pelo diretor Eduardo Coutinho no filme Jogo de Cena (2007).

O quanto do filme há na peça, no fim das contas? "Fomos fiéis ao argumento", avalia Maria. "Avançamos a partir de determinados pontos para criar uma nova obra e para levantar questões mais afinadas com o que queríamos dizer."

Ela também está em cartaz na cidade com outro espetáculo, A Loba de Ray-Ban, em que contracena com Christiane Torloni. Além de uma óbvia aproximação temática - a Loba também se debruça sobre o sexo e as relações humanas -, Maya também enxerga um diálogo formal entre os dois trabalhos. "Na Loba, somos atores fazendo atores, em um limite muito tênue entre ficção e realidade. Em Play, somos personagens entre a ficção do filme e nossas próprias realidades." Sinal de que sexo e desejo ainda são incômodos para serem abordados de maneira escancarada?

Serviço

Play. 90 min. 14 anos. Teatro Nair Bello (200 lug.). Rua Frei Caneca, 569, 3472-2414. 3.ª e 4.ª, 21 h. R$ 40. Até 24/2

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