Simetrias entre a peste e a corrupção

Simetrias entre a peste e a corrupção

Renato Dias Baptista*, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2014 | 20h20

Artigo originalmente publicado no Estadão Noite

Os livros contêm os momentos da humanidade, representados por meio de relatos circunstanciados, de analogias ou de alegorias. A alegoria, a propósito, pode originar do autor ou de seus leitores. Neste último aspecto reside a proposta deste artigo. A ideia ocorre em circunstâncias pós-eleição presidencial e pós-leitura do livro ‘A Peste’, de Albert Camus. A obra, publicada em 1947, narra os relacionamentos humanos no decurso de uma peste. Para construir a alegoria, utilizei frases – algumas com adaptações - desse e os manterei em itálico como crédito ao autor.  

O tempo descrito por Camus demonstra perenizar e estar à espreita e sedento por vínculos. E este é o momento da conexão não aleatória, um tempo carregado por um descontentamento generalizado com a corrupção. A descrença na política que ora é asfixiada pela crença naqueles que se comprometem em extirpá-la, ressurge cambaleante e sem direção e faz renascer a mágoa na população. Uma população cansada sente que está distante daquilo que mais deseja. Sim, o amor desaparece porque o amor quer coisas futuras e o futuro parece nebuloso. 

A corrupção é a peste dos tempos atuais. Seria melhor um terremoto, porque após os abalos contam-se os mortos e não se fala mais nisso, mas a peste mata todos os dias. Ela está ali nos jornais, num descritivo sem fim como um jornal da epidemia. Contudo, a corrupção tal qual a peste tem o seu lado bom porque abre os olhos e obriga a pensar. Se nós convivemos nesta realidade é possível que tenhamos alguma responsabilidade, visto que isolamos alguns ratos e esquecemo-nos da contaminação. É preciso dizimá-la ao mesmo tempo em que tentamos entender o lado obscuro daquele ser humano contagiado por ela. Quando se vê os efeitos que ela traz é preciso ser covarde para se resignar.

Não podemos nos acostumar com a narração diária da corrupção veiculada na mídia, porque se pode chegar a um tempo em que as pessoas perceberão isso como uma abstração. Quando esse dia chegar, aqueles que corrompem terão controle absoluto, e neste cenário está localizada a censura da informação. Chegará uma hora que quando alguém disser que dois mais dois são quatro, este alguém poderá ser punido.

A honestidade pode vencer a peste e também pode vencer a corrupção. E até o dia em que isso ocorra, não adianta sentir pena, seja da sociedade ou de si mesmo, tampouco se manter subserviente, já que as pessoas cansam da piedade quando a piedade é inútil

É difícil dizer qual é o limite de tolerância da sociedade em relação à corrupção. Mas sabemos que a consciência surge na ruptura, no limite. Também devemos reconhecer que essa consciência não está no jornalismo declaratório, mas nos incontestáveis resultados de investigação.  

No mundo descrito por Albert Camus, o ambiente somente foi reconhecido com o surgimento dos ratos. E lá, como aqui, os ratos já estavam presentes, eles apenas se tornaram evidentes. “A peste nada mais era para eles do que uma visita desagradável que havia de partir um dia...

* Renato Dias Baptista é professor assistente doutor do curso de Administração da Universidade Estadual Paulista, Unesp, Câmpus de Tupã. E-mail: rdbaptista@tupa.unesp.br 

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