Simplesmente Maria

Avó materna de Jairzinho e Luciana Mello guarda história de trabalho árduo e superação em terras brasileiras

Maíra Watanabe Falseti, Especial para o JT,

15 de março de 2008 | 15h22

Quem vê os lindos olhos amendoados de Isabela, filha do cantor Jair Oliveira e da atriz global Tânia Kalil, não pode imaginar o quanto eles estão ligados à imigração japonesa no Brasil. Muito embora Jairzinho tenha herdado mais características físicas do lado paterno, sua avó materna é oriental e guarda uma história de trabalho árduo e muita superação em terras brasileiras. A maior parte da saga de Maria Iquenouchi, de 83 anos, se passa aqui. Mas tudo começou em outro país da América Latina, o Peru, e inclui passagens também pela vizinha Bolívia. Maria tinha apenas 3 anos quando seus pais resolveram imigrar para o Peru. A vida seguia o ritmo normal para uma família de imigrantes - com bastante trabalho e algumas dificuldades de adaptação - quando um acidente modificou para sempre a vida de Maria. Um raio atingiu a casa onde eles moravam, provocando um incêndio. Seus pais morreram pouco depois, em decorrência desse trauma. Maria e seu irmão, com 10 e 8 anos, respectivamente, ficaram órfãos. "Não deu pra salvar nada", conta a imigrante, que tem apenas uma foto de seu pai. Os dois foram criados por um vizinho. "E não resta ninguém para contar essa história com detalhes", completa Clodine, mãe de Jairzinho.Como na cidade peruana não havia muitos japoneses, Maria cresceu tendo pouco contato com a cultura oriental. Mesmo assim, os costumes da Terra do Sol Nascente se perpetuaram na família. Maria se casou duas vezes e pode ser considerada uma mulher moderna para sua época. No primeiro casamento, com um descendente de turcos, ela tinha 14 anos. Tiveram dois filhos em Cobija, cidade boliviana onde moravam. Logo depois, se mudaram para o Brasil.Foi no Acre que ela conheceu seu segundo marido, João Melo, brasileiro do Rio Grande do Norte, com quem teve seis filhos, entre eles Clodine. Melo passava boa parte do tempo no seringal e Maria precisava trabalhar muito para manter sua grande família. "Ela fazia pastéis, bolos e doces para vender", conta Clodine. "E não havia água encanada em casa."A japonesa decidiu mudar novamente o rumo de sua vida. "Vim para São Paulo para dar um estudo e uma vida melhor para eles", diz a imigrante, com um sotaque que mistura espanhol e japonês. "Em São Paulo, minha mãe tinha uma pensão e todos os filhos trabalhavam", lembra Clodine.Só uma mulher muito forte poderia fazer tanto. "Ela é sábia, vai entendendo as mudanças da vida", diz a filha. "Ela sempre foi reservada e viveu para os filhos. Por isso, todos nós da família procuramos ficar em casa com ela."Maria tem um sonho: voltar ao Japão. Seus filhos, por enquanto, procuram poupá-la da longa viagem, por causa de seus problemas de saúde. Ao mesmo tempo, já estão pavimentando o reencontro com as raízes: com dificuldade, localizaram um primo distante.Clodine já esteve lá algumas vezes. Na primeira, se emocionou muito. "Era um sonho, uma curiosidade", conta. A beleza exótica da mestiça conquistou Jair Rodrigues, com quem a então modelo se casou. "Conheci ele com 20 anos e com 21 tive meu primeiro filho, Jairzinho." Em sua casa, Clodine montou uma sala oriental e um jardim, em homenagem à mãe. Maria está cercada pela grande família: 8 filhos, 22 netos e 16 bisnetos.

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