Síria amplia repressão; rei saudita condena violência

O presidente sírio, Bashar al-Assad, aumentou a investida militar com apoio de tanques no coração da região muçulmana sunita da Síria, e ampliou o isolamento internacional depois que seus vizinhos árabes denunciaram a violência e chamaram de volta seus representantes em Damasco.

KHALED YACOUB OWEIS, REUTERS

08 de agosto de 2011 | 14h41

A operação síria incitou uma extraordinária condenação do rei da Arábia Saudita, que alertou o líder sírio sobre a necessidade de adoção de reformas ou o risco de derrota.

O rei Abdullah rompeu o silêncio árabe -- depois da mais sangrenta semana em quase cinco meses de levante popular por mais liberdade política na Síria - para exigir o fim do derramamento de sangue. Ele retirou o embaixador saudita de Damasco.

Horas depois, Kuweit e Barein também chamaram de volta seus embaixadores.

Países ocidentais já haviam imposto sanções contra as principais autoridades sírias enquanto nações com estreita ligação com o regime, como Rússia e Turquia, também advertiram Assad de que seu tempo está se esgotando.

A crítica saudita foi a mais dura do gigante do petróleo contra qualquer país árabe desde que uma onda pró-democracia começou a se espalhar pelo Oriente Médio em janeiro, derrubando governos autocráticos na Tunísia e no Egito, incitando uma guerra civil na Líbia e abalando elites enraizadas em toda a região.

"O que está acontecendo na Síria não é aceitável para a Arábia Saudita", disse Abdullah em um comunicado escrito divulgado pela televisão Al Arabiya.

"A Síria deveria pensar de forma sensata, antes que seja muito tarde, e promover e instaurar reformas que não sejam meramente promessas, mas reformas de fato", disse. "Ou (o país) escolhe a sabedoria por conta própria ou será arrastado para as profundezas da turbulência e perdas."

Tanques e tropas sírias tomaram a cidade sunita de Deir al-Zon, na mais recente etapa da campanha para reprimir os principais focos do protesto contra 41 anos de governo da família Assad e o domínio da linha muçulmana minoritária alauíta na Síria.

O morador Mohammad, da região de Deir al-Zor, disse à Reuters por telefone que ao menos 65 pessoas foram mortas desde que tanques e veículos armados entraram no domingo na capital da província, situada 400 quilômetros a nordeste de Damasco.

Horas mais tarde, Assad, substituiu o ministro da Defesa, indicando o general Daoud Rajha para substituir Ali Habib no cargo.

A Liga Árabe pediu o fim do derramamento de sangue, mas seu líder disse nesta segunda-feira que a entidade usará de persuasão ao invés de adotar "medidas drásticas" para resolver o conflito. O Kuweit descartou a possibilidade de ação militar contra Assad.

Essas reações comedidas contrastam com o endosso dado pela Liga Árabe à criação de uma "zona de exclusão aérea" na Líbia, posta em prática pelos aviões de guerra da Otan em apoio aos rebeldes que combatem o líder líbio, Muammar Gaddafi.

CENTENAS DE MORTOS

A repressão em Deir al-Zor, numa área produtora de petróleo, na fronteira com o Iraque, foi desencadeada uma semana depois que tanques invadiram a cidade de Hama, onde centenas foram mortos na semana passada.

A França reiterou o chamado feito a Assad para que encerre a campanha militar. Segundo grupos de defesa dos direitos humanos, 1.600 civis foram mortos até agora na repressão na Síria.

"A época da impunidade acabou para as autoridades sírias. Essa repressão sangrenta, em larga escala, tem de acabar", disse a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da França, Christine Fages.

A Alemanha afirmou que Assad perderá legitimidade para governar se não interromper a repressão e optar pelo diálogo com seus opositores.

As autoridades sírias negam que tenha ocorrido uma ação militar em Deir al-Zor. A agência estatal de notícias informou que "nenhum tanque sequer entrou em Deir al-Zor" e que os relatos de tanques na cidade eram "o trabalho das provocadoras emissoras por satélite".

A Síria tem barrado a maioria dos jornalistas, o que torna difícil confirmar os fatos relatados pelos dois lados em conflito.

As autoridades dizem que o governo está sendo alvo de ataques desde a irrupção das primeiras manifestações, em março, culpam sabotadores armados pela maioria das mortes de civis e também de 500 membros das forças de segurança.

O primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, que mantinha estreita ligação com Assad, mas vem criticando duramente a repressão, afirmou que seu chanceler, Ahmet Davutoglu, irá visitar a Síria na terça-feira.

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