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Síria comanda rede de centros de tortura, aponta relatório

Abusos representam crimes contra a humanidade e devem ser investigados pelo TPI

Reuters,

03 de julho de 2012 | 12h47

NOVA YORK - As agências de inteligência sírias estão operando uma rede de centros de tortura em todo o país. Detentos são espancados com cassetetes e cabos, queimados com ácido e sofrem violência sexual. A informação foi revelada pela entidade Human Rights Watch (HRW) em um relatório divulgado nesta terça-feira, 3. Segundo o HRW, os abusos com aval do Estado representam crimes contra a humanidade que devem ser investigados pelo Tribunal Penal Internacional.

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O relatório do HRW, que tem sede em Nova York, identificou 27 centros de detenção que as agências de inteligência estariam usando desde março de 2011, quando o governo do presidente Bashar Assad começou a repressão aos protestos pró-democracia que se transformaram em uma revolta armada.

O governo da Síria não respondeu imediatamente às acusações que foram ecoadas em relatórios anteriores da Organização das Nações Unidas.

O Human Rights Watch disse que "dezenas de milhares de pessoas" foram detidas pelo Departamento de Inteligência Militar da Síria, a Direção de Segurança Política, a Direção Geral de Inteligência e da Direção de Inteligência da Força Aérea.

Relatos

 

O grupo informou que realizou mais de 200 entrevistas com pessoas que disseram ter sido torturadas, incluindo um homem de 31 anos que foi detido na área de Idlib em junho e teve que se despir. "Então eles começaram a apertar meus dedos com um alicate. Eles colocaram grampos nos meus dedos, peito e ouvidos. Eu só podia tirá-los se eu falasse. Os grampos nas orelhas eram os mais dolorosos", teria dito ele.

 

"Eles usaram dois fios ligados a uma bateria de carro para me dar choques elétricos. Eles usaram armas de choque nos meus genitais duas vezes. Eu pensei que nunca iria ver minha família novamente. Eles me torturaram assim três vezes em três dias", acrescentou.

O Human Rights Watch afirmou que documentou mais de 20 métodos de tortura que "apontam claramente para uma política de Estado de tortura e maus-tratos e, portanto, constituem um crime contra a humanidade".

Violações documentadas

Os investigadores de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) fizeram relatos semelhantes. "A tortura é uma das mais extensivamente e mais bem documentadas das muitas terríveis violações dos direitos humanos que ocorrem na Síria nos últimos 15 meses", disse o porta-voz de direitos humanos da ONU Rupert Colville em uma entrevista coletiva em Genebra nesta terça-feira.

Houve um "fluxo constante de informações muito consistentes sobre o uso sistemático da tortura generalizada e, claro, se é generalizada e sistemática, equivale a um crime contra a humanidade", acrescentou ele.

A recente missão da ONU na região entrevistou pessoas que enfrentaram espancamentos, choques elétricos, queimaduras de cigarro, execuções simuladas, e privação do sono, disse ele.

O Human Rights Watch apelou ao Conselho de Segurança da ONU para entregar a Síria para o Tribunal Penal Internacional (TPI) e impor sanções aos oficiais que realizam abusos. "O alcance e a desumanidade desta rede de centros de tortura são verdadeiramente horríveis", afirmou Ole Solvang, pesquisador de emergências do Human Rights Watch.

A Rússia - um aliado da Síria - e a China já vetaram duas resoluções do Conselho que condenavam Damasco e ameaçavam com sanções. A ONU disse que mais de 15 mil pessoas foram mortas durante o conflito na Síria que já dura 16 meses.

 

Texto corrigido às 16h35

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