Skype busca parcerias com operadoras de celulares no Brasil

Presidente da empresa prevê que serviços de voz deixarão de ser cobrados de maneira diferente dos serviços de dados

Renato Cruz, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Josh Silverman, presidente mundial da Skype, empresa de telefonia via internet, sabe português. Ele visitou o País por cinco semanas em 1995. "No voo de ida, li um livro de frases em português, com a pronúncia e os principais verbos", disse o executivo, em inglês, numa entrevista via Skype. "Eu tentei viver com um orçamento bem pequeno e, quando você faz isso, não encontra muitas pessoas que falam inglês. O que é ótimo." Ele viajou de ônibus de São Paulo para o Rio e depois foi para Lençóis (BA).

O Brasil está entre os cinco maiores mercados do Skype. Apesar de não ter presença local, a empresa busca parcerias com operadoras celulares brasileiras. O Skype acabou de fechar uma parceria com a ONG Comitê para Democratização da Informática (CDI), patrocinando o centro de inclusão digital "Mensageiros da Esperança", no bairro da Freguesia do Ó, em São Paulo. Além disso, o CDI oferecerá treinamento sobre o Skype em todas as suas unidades.

Na semana passada, o Skype terminou seu processo de cisão, transformando-se numa empresa separada da eBay, site de leilões que continua com cerca de 30% da companhia. O restante foi vendido para fundos de investimento. A empresa tem mais de 520 milhões de clientes registrados, que podem fazer chamadas gratuitas de Skype para Skype. Segundo a consultoria Telegeography, o Skype já conquistou uma fatia de cerca de 8% do mercado de ligações internacionais. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais são as principais mudanças na empresa, com a cisão?

A cisão nos traz foco. Temos um conselho de administração com bastante experiência para ajudar uma companhia do nosso tamanho a crescer. Muitos integrantes também têm experiência no mercado corporativo, porque existe uma grande demanda pelo Skype nas empresas, e eles estão nos ajudando nessa área.

Quais são seus planos para o Brasil?

O Brasil é um mercado muito importante para nós. É um de nossos cinco maiores mercados e tentamos falar mais com a comunidade brasileira. Também discutimos parcerias mais amplas no Brasil. Nós temos uma parceria com a Transit Telecom, que fornece os serviços pagos para o Skype no Brasil. Uma das coisas que estamos anunciando é uma parceria com o CDI. É uma grande maneira de reduzir a exclusão digital: oferecer acesso à internet e aos computadores para pessoas de baixa renda no Brasil, com treinamento que permita se comunicar pelo País e ao redor do mundo.

Vocês planejam ter presença local aqui?

Não temos planos imediatos de ter funcionários no Brasil. Estamos procurando novas parcerias no Brasil, nos mercados móveis e corporativo, para ampliar nossa presença.

Como estão as conversas com as operadoras brasileiras?

Estamos falando com operadoras em todo o mundo, e estamos muito animados com a oportunidade de oferecer valor para os clientes deles e para nossos clientes. Olhando para o Skype no iPhone, tivemos 1 milhão de downloads em dois dias. Dois meses depois, alcançamos uma presença correspondente a 10% de todos os iPhones do mundo. Isso mostra a extrema popularidade da demanda pelo Skype em aparelhos celulares.

Existem operadoras que veem o Skype como uma forma de perder receita. Como vocês enfrentam isso?

A visão das operadoras está mudando rapidamente. Elas perceberam que o Skype é uma aplicação extremamente popular. Consumidores de alto valor querem o Skype. Em todo mundo, as operadoras gastam centenas de dólares para roubar um cliente de seus competidores. A oportunidade de conquistar usuários do Skype traz muito valor para elas. As operadoras economizam centenas de dólares na aquisição do cliente, e ganham clientes de valor que mudam menos de operadoras porque estão felizes com o Skype. Elas só perdem o faturamento de longa distância. Para a maioria das operadoras globais, a longa distância internacional é uma parte muito pequena do faturamento. Não tem nem o que pensar.

O senhor já tem parcerias como essa?

Temos uma parceria com a operadora 3, que pertence à Hutchinson Whampoa. No Reino Unido, eles se posicionam como a empresa que oferece Skype gratuito e ilimitado. Há dois anos, eles começaram a oferecer o 3 Skypephone, que é construído todo ao redor do Skype. Tem um botão de Skype no meio do aparelho. Quando o usuário aperta o botão, todos os contatos do Skype aparecem e ele pode chamar ou mandar uma mensagem de texto para qualquer um em sua lista, completamente de graça. Eles ganharam muitos clientes por causa do Skypephone e esses clientes gastam muito dinheiro com a 3. Quem tem Skype faz mais chamadas de GSM pela rede da 3 e manda mais mensagens. A 3 tem uma receita 15% maior com clientes que usam o Skype do que com os que não usam.

Como o senhor explica o comportamento dos clientes da 3?

Os usuários da Skype são comunicadores. Eles gostam de falar e nem todos os amigos deles estão no Skype. Existem alguns que em algumas horas estão no Skype e em outras não. Quando não estão, é preciso telefonar ou mandar mensagens.

É esse tipo de acordo que vocês buscam no Brasil?

Somos muito abertos sobre o modelo de acordo, mas achamos que o modelo da 3 é um sucesso.

Como o senhor planeja aumentar o faturamento da empresa, que ainda é modesto comparado a base de usuários?

Tudo é relativo. O Skype anunciou um faturamento de US$ 185 milhões no trimestre passado. Isso faz com que o Skype seja uma das empresas com crescimento mais rápido de receita na história do mercado de tecnologia.

E qual é a estratégia de crescimento?

Estamos trabalhando em algumas áreas. A primeira é que não temos feito um trabalho tão bom de dizer para os nossos usuários quais são os serviços pagos que temos. Por exemplo, nossos serviços de assinatura, em que é possível comprar ligações ilimitadas nos Estados Unidos por US$ 3 mensais ou ligar para toda a Europa por US$ 9 mensais. As assinaturas têm somente um ano. A segunda coisa são novos produtos pagos. Faturar US$ 1 bilhão em dois anos é uma meta alcançável.

Qual é o futuro para operadoras tradicionais de longa distância?

Para nós, voz é somente dados e, com o tempo, será transportada pela internet tradicional. Fazer uma chamada, enviar uma mensagem de texto, navegar numa página da web ou baixar um filme, tudo isso é comunicação de dados. A ideia de que se pode cobrar por voz de uma maneira diferente de outras formas de dados estará com a gente por algum tempo, porque essas coisas não mudam de um dia para o outro, mas, no final, essa diferença vai acabar. As operadoras continuarão oferecendo acessos de dados para pessoas e para empresas, sejam eles fixos ou móveis. Estamos no mercado de oferecer software e aplicações. Existe muita sinergia entre essas coisas, certo? Ninguém acorda de manhã e diz: eu quero 3G. As pessoas acordam de manhã e dizem: quero Facebook no meu celular, eu quero o Skype no meu celular.

Como está seu português hoje?

Eu falo só um pouco, e eu posso entender (diz em português). Meu espanhol é melhor. Eu consigo me fazer entender, mas meu português é muito rústico. Temos alguns brasileiros que trabalham na Skype. A pessoa que comanda nossa equipe de design, responsável pelo belo design que você no Skype, se chama Henrique Penha, e ele é brasileiro. Às vezes, eu o torturo com meu português.

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