Só mais uma coisa 'Jorje' André é pernambritânico.

Blog: andrelaurentino.blogspot.com Twitter: @dedelaurentino Só mais uma coisa ANDRÉ LAURENTINO

O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2012 | 02h08

Eu havia terminado de ler 'Na Casa do Rio Vermelho', livro que conta as histórias da residência baiana de Jorge Amado e Zélia Gatai. Dias depois, tive de ir a Salvador a trabalho. Pousei cedo na Bahia e, curioso, perguntei ao taxista quanto tempo levaria um desvio até a casa de Jorge.

Queria tirar uma foto em frente ao portão e seguir para meu compromisso. Fazia um calor abafado. Havia chovido por um mês e aquele era o primeiro dia de sol. O ar cheirava a terra molhada. Tirei o paletó e as fotos. Antes de voltar ao taxi, ousei subir os degraus decorados com mosaicos de azulejo e posei junto à placa do número 33, com corações que entrelaçam Zélia e Jorje (com J). Desci a escada com minha foto roubada. Estava feliz. Perguntei a um homem ali perto se a casa ainda era da família. O homem disse que a casa estava fechada há vários anos. Mas que eu podia perguntar ao neto de Jorge, que estava ali, partindo em sua moto. Corri.

Ele vestia o capacete quando o interrompi. "Você teve sorte", ele disse. "Quase nunca tem gente aqui". Pedi que, se não fosse muito, me deixasse ver o jardim pela fresta do portão. João fez mais.

Desceu da moto e disse: "Bem-vindo." Eu, com a história da casa na cabeça, ia perguntando pelas coisas: a escultura de Exu, o banquinho debaixo das árvores, o limite do terreno antes da ampliação. Vi a famosa varanda, a porcelana de Picasso, sentei-me no banco de cimento e azulejos. Ele, num susto, se certificou: "Você não é jornalista, é?" Sou leitor, João. Leitor brasileiro. Leitor menino. Os olhos marejados não me deixavam mentir.

Ele compreendeu. E alongou minha visita. Vi os sapos de barro, as pombas de madeira com olhos de bola de gude, os desenhos de Caribé, as prateleiras com etiquetas amareladas. A mesa. Vi o que quis e o que pude. Estive na casa concreta, de cama e móveis de concreto, que havia habitado semanas antes na fumaça de minha leitura. Era segunda-feira, dia de Exu. Era 9 de agosto, véspera do aniversário de Jorge.

Saí da casa mas não do transe. Das tantas histórias daquela casa, que li

com inveja e ciúme, jamais imaginei

que uma delas aconteceria comigo. Nem que Jorge e Zélia estariam lá, no dia de minha visita.

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