Só mais uma coisa Maria André é pernambritânico. Blog: andrelaurentino.blogspot.com Twitter: @dedelaurentino Só mais uma coisa ANDRÉ LAURENTINO

O jornal Washington Post fez uma experiência no metrô da cidade. Um dos melhores violinistas do planeta estava em turnê na capital e a experiência era a seguinte: Joshua Bell tocaria incógnito seu violino numa estação de metrô. Um boné no chão recolheria as moedas.

O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h13

As poucas pessoas que deram algum troco sequer pararam para ouvir. Quando Joshua guardou seu violino (que valia três milhões e meio de dólares) não houve aplausos.

Eis minha experiência no metrô de Londres, anos atrás. Estava de férias e já subia a escada para atingir a rua quando me dei conta do tema que vinha de um sax (na época, Kenny G povoou de saxofones as estações de metrô mundo afora). A canção que chegava a mim não era Kenny G. Era algo suave, que reverberava na memória. Memória antiga e afetiva. O que tocava era 'Manhã de Carnaval', de Antônio Maria, meu conterrâneo. Um autor recifense enchia os ares do metrô de Londres. Desci as escadas correndo. O saxofonista era alto e ruivo, dificilmente seria brasileiro. Fiquei ainda mais comovido.

Ouvi a música até o fim. Depois, agradecendo a honra, coloquei dez libras em seu chapéu. Ele não acreditou, e achou que eu havia me confundido ao dar uma nota de valor tão graúdo. Gesticulei que não, e segui adiante orgulhoso do talento de minha aldeia.

A ilusão durou décadas, e manteve-se intacta até anteontem. Eu passava entre os computadores do escritório quando ouvi o que vinha do monitor de um colega: a introdução de 'Manhã de Carnaval'. Voltei sorrindo e já ia contar o antigo episódio do metrô quando entrou a voz. Sim, era 'A voz': Frank Sinatra, cantando em inglês. Então era isso. O ruivo magrela não conhecia Antônio Maria coisa nenhuma, e tampouco sabia da existência de Recife ou mesmo do Brasil. Conhecia era a versão americana. Ele tocou Frank Sinatra e eu paguei por Antônio Maria. Na mesma hora tive pena das minhas dez libras.

Enquanto a experiência do Washington Post rendeu um prêmio Pulitzer em 2008, a minha rendeu uma bestagem.

O título americano da canção, aliás, é uma carapuça. Chama-se 'A day in the life of a fool'.

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