Só mais uma coisa Meu berço André é pernambritânico. Blog: andrelaurentino.blogspot.com Twitter: @dedelaurentino Só mais uma coisa ANDRÉ LAURENTINO

Na época em que ainda se dirigia em São Paulo, bem antes do trânsito ter parado a cidade completamente, eu contemplava a neblina que cobria os letreiros de néon da Avenida Paulista (na época em que havia letreiros na Av. Paulista) de dentro do meu Kadett com placa amarela de Olinda. Dirigia deslumbrado. A Av. Paulista era real e tinha neblina, outra novidade.

O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2013 | 02h13

Pensei na minha Tia Nai. Um dia, uma amiga lhe contou que havia tirado a carta de motorista. Tia Nai ficou surpresa com a façanha, e até com certa inveja. Ainda não acreditando, quis saber até que ponto ia a grandeza da amiga: "Mas você dirige até pela Av. Conde da Boa Vista?" Numa noite de setembro, há exatos vinte anos, eu dirigia meu Kadett e pensava: "Tia Nai, seu sobrinho dirige até na Av. Paulista!". Acho que ninguém da família havia conquistado vitória maior.

Depois, passando pelas imediações do obelisco do Ibirapuera, olhei a orgia das placas de trânsito em torno, apontando para todas as direções da cidade, e disse: só posso me considerar paulista no dia em que souber guiar por aqui sem ler placa. Essa ficou sendo minha certidão de nascimento paulistana. Sempre que dirigia por ali, me orientava pelas placas e percebia que ainda era um imigrante.

Não perdi meu sotaque. Passei a falar "meu", "pô", "bichô" e "troço". Mas ainda olhava as placas.

Anos depois, precisei trocar a placa amarela do Kadett pela cinza, já com São Paulo em lugar de Olinda. Muitas idas ao Detran, várias filas, milhares de vias, carimbos e viagens perdidas foram necessárias. Finalmente, no limite de minha paciência, consegui a placa cinza. De tanto ir ao Detran, aprendi a dirigir pelo obelisco sem olhar as placas.

Saindo de lá com o carro já emplacado, toquei para o trabalho no Morumbi. Fiz o retorno e, ao passar em frente ao prédio gigante onde reina a burocracia, mostrei-lhe o dedo com toda a felicidade e orgulho. Mas ao voltar os olhos para o trânsito, eu estava em cima de uma bifurcação e me atrapalhei e procurei uma placa e não deu para ler e escolhi um dos caminhos e fui cair na Sena Madureira, onde eu nunca havia estado. O carro podia ser de São Paulo, mas

eu ainda não.

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