Só mais uma coisa Opa André é pernambritânico. Blog: andrelaurentino.blogspot.com Twitter: @dedelaurentino Só mais uma coisa ANDRÉ LAURENTINO

De repente me dei conta do fato inapelável: eu não sei falar 'desculpe'. Por mais

O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2012 | 03h15

que eu tente, só sai 'opa,

desculpe'. Tem um 'opa' na frente.

Lembro de quando a ficha caiu, num ônibus Rio Doce/Casa Caiada. Esbarrei numa senhora idosa, cheia de pacotes, e disse: "opa, desculpe". Até aí tudo bem. Mas no terceiro esbarrão durante aquela curta viagem, com o 'opa'

sempre antes do 'desculpe', a verdade fez-se clara e perene.

A partir dali me incomodava toda vez em que o 'opa' saía por conta própria. O pior é que, como o fenômeno vinha sempre atrelado a algum imprevisto, não dava para me preparar de antemão. Quando percebia, já era tarde.

Passei a invejar quem conseguia dizer apenas 'desculpe' após pisar no pé de alguém. Mesmo que essa pessoa dissesse 'indentidade', ou 'obrigadúúúú' ou 'chocrível', ela conseguia dizer 'desculpe' sem 'opa' - e merecia toda minha admiração.

Divisei um período de treinamento e cura. Comecei a esbarrar em pessoas estranhas apenas para gerar a deixa. O melhor ponto era perto de escada rolante de shopping. Eu me concentrava, escolhia o alvo e... esbarrão. Mesmo assim, 'opa, desculpe'. Perdi a conta de quantos executivos, adolescentes, vendedores ou famílias inteiras foram vítimas de minha diligência.

Tempos depois, ainda sem sucesso, li sobre como fazer quando ficamos com uma música presa na cabeça. O segredo é cantá-la até o fim, pois o cérebro não desiste enquanto não for até o fim. Resolvi usar da mesma técnica: usava 'opa' em tudo quanto é ocasião. Em vez de 'oi', 'opa!'. Tudo bem, Dedé? Opa! Você conhece o fulano? Opa! Chutou pra fora. Oooooopa! O garçom vai passando. Opa! opa! opa! Etc... Opa.

Deu certo. Depois de um mês, quando fui comprar um cachorro-quente na Kombi em frente ao trabalho, tropecei sem querer e fiz um senhor derramar suco de laranja no próprio terno. "Desculpe!", falei. Fiquei tão feliz que falei de novo; dessa vez, sorrindo. Ele não entendeu, achou que era gozação. "Quer engrossar?", ele perguntou.

Instintivamente respondi: "Opa!" Devo ao Lenildo da Kombi ter escapado sem um olho roxo, para o qual eu teria que inventar mil desculpas.

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