Só mais uma coisa Te diz André é pernambritânico. Blog: andrelaurentino.blogspot.com Twitter: @dedelaurentino Só mais uma coisa ANDRÉ LAURENTINO

Um cursor piscando na tela. É o pulso do desejo, das promessas e do medo. Tudo é possível para o cursor que acena, vai e vem, diante do olhar branco de quem vê.

O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h11

O cursor não altera seu ritmo, por mais desvarios que lhe venham à mente. O cursor pisca, serenamente. Some e volta, torna a sumir. Como se fosse ao infinito buscar notícias e, diante do assombro que viu na rápida viagem ao porão da noite, viesse à tona para nos rever e se despedir. Olha fundo em nossos olhos, desiste, afoga.

Para onde vai o cursor que pisca? Que arco-íris ele salta, que culpa o faz voltar? Que sabe ele da morte, do perigo de se dançar quando há na sala uma só cadeira para sentar?

Nunca veio resposta. Quando ele corre deixa um rastro do que foi dito em silêncio. Então se arrepende e retorna comendo. Como come esse cursor, se empanzina de meus erros e enganos. Errar engorda; mas o cursor é magro de ruim.

Cursor, porta-voz dos orixás, me traz a verdade quando voltar. Pede um favor para mãe Iemanjá. A cada pedido ele avança uma letra, vai carregando nossos ouros, nossas dores e espelhos para dentro bem dentro do seu mar cristalino. Dona Janaína o recebe com festa, e toma para si as poucas pérolas. O que ela rejeita o cursor devolve, deixa os restos boiarem na flor branca da página. No dia seguinte, os pedaços tristes vem dar na margem e mostram trechos desconexos do que foi uma festa. Só o cursor sabe. E nada diz.

Pergunto dos mistérios do lado de lá. Diz, cursor, das coisas que estão por vir. Como é que elas são? Ele foge, parece que agora foi decifrar, e surge de mãos vazias lá do meio do meu alvoroço.

Mas o pensamento é um vento que atina em outro lugar. Quando roça na tecla, o vapor se condensa. Nesse lugar remoto, diáfano, profundo, que nem os sonhos conseguem mostrar, encontra o cursor com a brisa. E vem navegando, vem enfunado pela viração da asa de uma abelha, vem vencendo sereias, cuidando que a vela não rasgue na luz, vem trazendo o que a concha mandou guardar. Quando eu quis saber quem eu amo - quando eu quis te dizer - o cursor soprou o teu nome. Lê.

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