Só mais uma coisa Um ano André é pernambritânico. Blog: andrelaurentino.blogspot.com Twitter: @dedelaurentino Só mais uma coisa ANDRÉ LAURENTINO

Fim de ano é amigo velho. Chega com todos os mistérios resolvidos e bem conversados, com os problemas de anteontem já desmistificados. Fim de ano não tem mais o frescor dos erros recentes, apenas o eco sem vida de uma culpa (que surge no estalo de língua de um muxoxo, à noite, quando a gente deita na cama e revê o dia).

O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2012 | 02h08

Fim de ano é tomar susto com um cachorro latindo às três horas da tarde no apartamento ao lado, como se nunca houvesse havido cachorro no mundo, ou três horas da tarde numa quinta-feira. É a falta de ordem, é o excesso de planos.

São os parentes distantes e suas antiguidades: presépios de palavra guardados na boca. "Dega era alegre. Dega era como uma casa cheia", "Todo dia Marcelo corria em volta dessa piscina", "Seu avô, meu filho, nem sentiu a morte do pai: era só preocupado com as duas". São os cheiros e gestos lançando gente de repente no tapete da sala.

Fim de ano são os filhos que choram abraçados a um cachorro de pelúcia. São os passarinhos que sumiram da gaiola (mas como?) no telefonema que se ouve da cozinha. São a poesia que vive na "ligação de certos objetos / que separadamente nada significam para nós". São os lugares para onde se viaja, que a qualquer instante podem saltar de um azulejo.

São os bares de encontros estridentes e longas cervejas. Um que engordou, uma que entristeceu, uma que

se mudou para Vitória e venceu. Saudades mortas. Lembranças boas. E os silêncios a gargalharem na mesa zombando de tudo.

Crianças de olhos acesos diante da manjedoura, renovando o espanto. O menino nasceu, a dúvida surgiu, a estrela chegou. Meu Deus, quanto Jesus! Papai Noel é o pai dele? Não põe a mão, menina, que dá choque.

Cheiro de protetor solar, passas no arroz, gordura nas bordas do copo, corte no pé, calço na mesa, areia. Listas e enumerações caóticas. Tristeza porque tudo passou. Alegria pelo que já foi. Esperança, superstição.

Travo na hora do brinde, anseios mudos espocando dentro das taças. O amor está, o precipício está, a noite esconde o destino.

Fim de ano é ida. Fim de ano é volta. Fim de ano é mar.

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