Sob a sombra dos pais

Parte da beleza de uma floresta tropical se deve à diversidade e à distribuição das árvores. Ao sobrevoar uma floresta, observamos árvores com flores vermelhas misturadas a copas com flores amarelas, sobre um tapete verde e extremamente heterogêneo. Folhas largas e escuras contrastam com folhas pequenas e claras, em copas de diferentes tamanhos e alturas. Raramente encontramos duas árvores da mesma espécie lado a lado.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

A impressão é que a floresta foi plantada de modo a evitar que árvores da mesma espécie se agrupassem. Como as florestas nativas não foram plantadas por um ser superior, a mistura sempre intrigou ecologistas. Principalmente se levarmos em conta como as árvores se reproduzem.

Grande parte das sementes de uma árvore atinge o solo sob sua copa, onde pode germinar e gerar nova árvore. Isso deveria resultar em agrupamentos de árvores da mesma espécie ou na predominância, em uma área, de diversos indivíduos da mesma espécies. Isso não é observado.

Há 40 anos, dois ecologistas lançaram a ideia de que um mecanismo inibiria o crescimento das árvores "filhas" na proximidade da "mãe". Agora, por meio de um simples experimento, ecologistas descobriram como esse mecanismo funciona.

Foram escolhidas seis espécies de árvores em uma floresta tropical do Panamá. Nesse grupo, a espécie mais frequente na floresta possui cem vezes mais representantes por hectare que a mais rara. Diversas árvores de cada espécie foram escolhidas e as sementes produzidas por cada árvore de cada espécie foram coletadas.

Além de coletar as sementes embaixo de cada árvore, os cientistas coletaram, debaixo de cada uma das árvores, um pouco do solo. Sementes e solos foram levados para o laboratório. As sementes de uma determinada árvore foram plantadas no solo coletado sob a própria árvore e no solo coletado sob as árvores de outras espécies. Com as diversas combinações, centenas de vasos foram obtidos.

Em paralelo, essa mesma combinação de solos e sementes foi repetida em um segundo grupo de vasos, mas com uma diferença: as amostras de solo foram esterilizadas antes do plantio das sementes. Feito isso, todos os vasos foram postos em uma estufa em condições idênticas e regadas da mesma maneira.

Cinco meses depois, cada mudinha foi pesada para verificar seu desenvolvimento. Observou-se que as mudas que germinaram no solo coletado debaixo de sua própria mãe tinham crescido menos que suas irmãs plantadas em solo coletado debaixo de outras espécies.

Essa observação confirmou a hipótese de que as sementes têm dificuldade de crescer no solo habitado pelas raízes de seus pais. Mas qual seria a causa dessa dificuldade? Seria alguma substância produzida pela árvore mãe? Os resultados obtidos com os mesmos solos, mas esterilizados, forneceram a resposta.

Quando as amostras de solo haviam sido esterilizadas, o efeito inibidor no solo desaparecia. As sementes cresciam com o mesmo vigor nos solo dos pais ou no solo de outras espécies. Isso demonstra que o efeito inibidor é causado por organismos vivos presentes no solo, como bactérias, vírus e outros parasitas. A conclusão é que a árvore mãe atrai e favorece o crescimento de bactérias e vírus que atacam suas próprias raízes. A presença desses organismos no solo dificulta o crescimento das sementes filhas, que são imediatamente atacadas assim que germinam.

Mas quando a semente filha tenta crescer embaixo de uma árvore de outra espécie, encontra um ambiente habitado por micro-organismos específicos para essa outra árvore, incapazes de atacar as sementes recém-germinadas. Isso explica por que é mais fácil crescer fora da sombra dos pais. A presença dos pais atrai seus inimigos.

Mas o mais interessante é que esse efeito inibidor, existente sob a árvore-mãe, é maior quanto menos frequente é a espécie na floresta. Espécies de árvores nas quais os indivíduos estão mais espaçados são aquelas em que os filhos têm mais dificuldade em crescer sob seus pais.

Essa descoberta demonstra que a população de vírus, bactérias e outros parasitas no solo das florestas é a responsável pela organização espacial das diferentes espécies em uma floresta nativa. Quem diria que esses seres minúsculos seriam os responsáveis por grande parte da beleza de uma floresta?

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: NEGATIVE PLANT-SOIL FEEDBACK PREDICTS TREE-SPECIES RELATIVE ABUNDANCE IN TROPICAL FOREST. NATURE, VOL. 466, PÁG 752, 2010

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