Sob pressão dos EUA, governo de facto diz aceitar oferta de Zelaya

Negociadores de Micheletti concordam em submeter volta de deposto apenas ao Congresso, como querem zelaystas

Reuters, TEGUCIGALPA, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Após retomarem o diálogo ontem com representantes do presidente deposto Manuel Zelaya, emissários do governo de facto de Honduras anunciaram que aceitarão que seja do Congresso a palavra final sobre a restituição - principal reivindicação zelaysta para um acordo. O anúncio foi feito um dia após a chegada a Tegucigalpa de uma missão do governo americano liderada por Thomas Shannon, secretário-assistente para Assuntos Hemisféricos.

"Nós simplesmente aceitamos a proposta da comissão de Zelaya", revelou Arturo Corrales, um dos três negociadores do presidente de facto, Roberto Micheletti.

A disputa sobre qual poder deverá - ou não - determinar a volta de Zelaya é o único dos 12 pontos da Proposta de San José em que não há consenso. Zelaystas dizem que a questão é política e, portanto, deve ser submetida ao Congresso - onde supostamente a maioria aprova a restituição. Golpistas afirmam que a matéria é legal e teria de ser decidida pela Suprema Corte, a qual depôs Zelaya e já negou uma vez sua restituição ao poder.

"Dissemos que a decisão caberia a uma instituição competente. Nós queríamos a Suprema Corte; eles, o Congresso. Agora, aceitamos: vamos ao Legislativo", explicou Corrales.

Feita um dia após a chegada da missão americana a Tegucigalpa, a revelação difere dos sinais que Micheletti vinha enviando à comunidade internacional. O presidente de facto argumenta que uma restituição seria inconstitucional, já que o Judiciário havia determinado a saída de Zelaya da presidência. "Nada e ninguém me fará mudar essa posição", dissera Micheletti, na terça-feira.

"Hoje será um dia de júbilo para Honduras porque consertaremos tudo sem olhar para trás, apenas para frente", disse Vilma Morales, também negociadora de Micheletti. "Estamos satisfeitos que Zelaya concordou em retomar o diálogo."

As negociações haviam sido interrompidas na semana passada pelo campo zelaysta. O governo de facto estaria "brincando", disse o chefe dos emissários de Zelaya, Víctor Meza, e arrastando o diálogo para ganhar tempo até as eleições presidenciais do dia 29.

Confusa, a última proposta que o governo de facto colocou sobre a mesa de diálogo previa que a decisão dos negociadores seria "soberana", mas submetida a "conselhos" do Legislativo e do Judiciário. A oferta fez zelaystas perderem a paciência e anunciarem a "suspensão" dos contatos. "O tempo está correndo", alertou Shannon.

Após semanas sem confrontos, policiais reprimiram ontem com bombas de gás cerca de 200 manifestantes que protestavam perto do Palácio Presidencial, no centro de Tegucigalpa. Segundo ONGs internacionais, o governo de facto cometeu várias violações desde que derrubou Zelaya, em junho. Os países da região afirmam não ser possível conduzir eleições livres sob regime de exceção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.