Sobre a epidemia de microcefalia no Nordeste do Brasil

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Marcelo Masruha Rodrigues*, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2015 | 13h54

O Brasil está diante de um problema de saúde pública grave e sem precedentes. Até o momento em que escrevo esse texto, havia cerca de 740 casos de microcefalia provavelmente secundária à infecção congênita pelo vírus zika, registrados nos Estados de Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí, Ceará e Bahia, todos no ano de 2015.

O Instituto Oswaldo Cruz (IOC) constatou a presença do RNA do vírus zika em amostras de líquido amniótico de duas gestantes do Estado da Paraíba, cujos fetos foram diagnosticados com microcefalia através de exames de ultrassonografia. Em que pese o fato do IOC enfatizar que esse achado ainda não estabelece uma relação causal entre o vírus zika e os casos de microcefalia, tudo leva a crer que ele seja realmente o responsável por essa condição.

O número de casos tem aumentado rapidamente e é grande a probabilidade que comecem a ocorrer em outras regiões do País. Isso porque o vírus zika se encontra disseminado por todo o território nacional e é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue. Na verdade, já podemos afirmar que a situação não se restringe à região Nordeste. Atendemos um paciente nesta terça-feira, 24, no Hospital São Paulo, cuja mãe não viajou para fora do Estado de São Paulo durante sua gestação, com quadro clínico e tomografia de crânio idênticos aos apresentados pelos pacientes previamente relatados.

A infecção por esse vírus, na sua fase aguda, também é muito semelhante à da dengue, com manchas vermelhas na pele que causam prurido, febre baixa e conjuntivite (sem secreção ocular), artralgia, mialgia e cefaleia. Entretanto, a maior parte dos infectados é assintomática, o que tem implicações importantes para o diagnóstico dos casos de infecção congênita.

O Ministério da Saúde decretou estado de emergência nacional e solicita a atenção da população para a intensificação de ações para o combate ao mosquito. As grávidas devem se proteger com o uso de roupas compridas, repelentes (adequadamente indicados por seus ginecologistas) e evitar viagens para áreas endêmicas.

Não se deve subestimar uma condição que, em poucos meses, produziu uma epidemia de casos graves de encefalopatia, com possibilidade de atraso motor, de linguagem e deficiência intelectual. O impacto que centenas de crianças deficientes irão gerar para o sistema de saúde brasileiro e para suas famílias exige um esforço conjunto, urgente e extraordinário.

* Dr. Marcelo Masruha Rodrigues, presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil e professor adjunto-doutor do Setor de Neurologia Infantil - Disciplina de Neurologia Clínica - da Universidade Federal de São Paulo

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