Carlinhos Müller/AE
Carlinhos Müller/AE

Sobre o lar de um viajante

O homem mais viajado do mundo

Mr. Miles, miles@estadao.com.br,

18 de fevereiro de 2011 | 08h00

Nosso impávido viajante teve de fazer uma inesperada (e curta) viagem até Northampton, na Inglaterra, com o intuito de acalmar sua querida tia Harriet, que, na semana passada, de bolsa em punho, atacou um bando de assaltantes que roubavam uma joalheira local.

 

A cena foi reproduzida pelas televisões do mundo inteiro. Na tentativa de fazer sua tia predileta compreender os riscos a que se expôs, mr. Miles quis convencê-la a jamais cometer tal desatino novamente. Mas não logrou êxito. A simpática senhora garantiu ao sobrinho que não deixará de aplicar corretivos quando surpreender amigos do alheio. "Alguém tem de ensinar bons modos a essa gente, Miles", concluiu tia Harriet, oferecendo-lhe chá com McVitie’s biscuits. A seguir, a pergunta da semana:

 

Mr. Miles: pelo que leio, o senhor, como alguns outros viajantes, não tem um lugar para chamar de lar. Isso não lhe faz falta? Jacira de Melo Salomão, por e-mail

 

"Dear Jacira: você está certa. Em verdade não tenho algo que se possa chamar de lar. Minha pequena casa no Condado de Essex, onde guardo vários tomos de passaportes encadernados em Alepo, na Síria, e a minha inútil coleção de bebidas extravagantes, que inclui, as you know, desde um uísque produzido em Sri Lanka até uma vodca feita no Gabão, é apenas um endereço.

 

Trata-se da mesma edificação em que viveram meus pais e é o lugar onde, sometimes, paro enquanto mando cerzir minhas meias e dar viço às malas. Mas jamais poderia ser um lar, porque ali não vivem pessoas queridas, nem amigos. Ali não há rotinas, hábitos ou afeto. Apenas paredes e móveis silenciosos. Meu lar, as you know, é o mundo. E quando digo isso me expresso com o coração.

 

Resido na casa dos velhos amigos que me recebem aonde quer que eu vá. Divido, com eles, alegrias e tristezas, fracassos e conquistas. Minhas roupas pesadas, for instance, vivem na casa de uma grande amiga em Katmandu. Meus livros estão em toda parte, do Chile ao Quirguistão.

 

However, é muito bom dividir essa reflexão com você, dear Jacira. Quem não tem casa, não precisa de coisas para pôr na casa. Minha vida - exceto pela pequena coleção de automóveis antigos que lord Cavanaugh guarda para mim em seu castelo - cabe em duas malas e duas valises.

 

Quando não se tem um endereço permanente, você aprende um novo valor para as coisas. Por exemplo: se vejo um objeto que me agrada muito em algum lugar remoto, satisfaço-me em contemplá-lo. Não preciso possuí-lo. E quanto mais coisas belas eu vejo, menos necessidade eu tenho de possui-las. Porque, anyway, eu passei por elas e elas passaram por mim. E isso, de alguma forma, me fez uma pessoa melhor e mais cheia de experiência. Sem contar que, by the way, economiza-se muito dinheiro...

 

Meu grande amigo viajante, o brilhante Martiles Shein, observou, certa vez, que uma casa é apenas um teto para proteger tudo aquilo que vamos acumulando durante a vida. Stuff, stuff and stuff. E quanto mais acumulamos, maior tem de ser a casa. E quando vamos visitar os outros, nós vemos o que eles acumularam e é claro que achamos que eles possuem um monte de awful stuff.

 

É, of course, uma visão radical, mas faz todo o sentido para mim. Gosto de ter um lar tão amplo que cada noite durma em um ambiente diferente. Com tantos familiares, que cada tarde possa conversar com alguém diferente, em um idioma diferente. Com tantos hábitos e rituais arraigados, que cada dia possa aprender uma coisa diferente. É a isso que chamo de home sweet home, my dear."

 

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 132 PAÍSES E  7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

 

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