Sobrevivente sai dos escombros para mergulhar em vida de miséria

Enfermeira resgatada por brasileiros em frente à câmera de TV não tem o que comer nem consegue ir ao médico

Leandro Colon, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Resgatada como uma heroína dos escombros de um hospital, 60 horas depois do terremoto que destruiu Porto Príncipe, a enfermeira Jean-Baptiste Mimose, de 43 anos, agora enfrenta o anonimato, a fome e a dor. Grávida de um mês e meio, repousa em dois colchões empilhados em um terreno baldio em uma favela da capital. Jean-Baptiste passa o dia deitada, já que não pode se locomover. Seis lençóis amarrados em árvores e madeiras improvisam um teto em meio a lixo, galinhas e cachorros.

A casa dela - numa viela de chão batido do bairro de Carrefour Shada - está condenada depois do tremor de terra. O marido, o policial Eddy Belfort, dorme no chão de cimento, ao lado dela e dos filhos Betchouzlens, de 10 anos, e Edwigde, de 16 anos. Ambos estão sem escola, destruída pelo terremoto. Jean-Baptiste relatou na última quinta-feira detalhes de suas horas de desespero sob os escombros - a água foi sua maior necessidade - e disse que faltam comida e assistência médica em casa. Contou que ela e sua família se alimentam, quando possível, de pão, leite e suco. "Os doutores (brasileiros) pediram para eu comer de tudo, mas não temos comida", lamenta.

Jean-Baptiste ficou conhecida no Brasil por ter sido resgatada por soldados brasileiros quase três dias depois do terremoto. Escombros do hospital de cinco andares no qual ela trabalhava havia 10 anos a cobriam até a cabeça. Ela escapou da lista de mortos depois que seu marido parou uma patrulha brasileira - acompanhada de jornalistas - pedindo ajuda para retirá-la dos escombros. "Eu escutava as pessoas e, de longe, o barulho dos carros", lembra.

Ela ficou uma semana sob cuidados médicos na base militar brasileira. Foi liberada no dia 21. Como os exames não apontaram nenhuma fratura, recebeu alguns remédios, um saco de um quilo de arroz, duas latas de sardinha, uma de óleo e alta médica. Os médicos brasileiros recomendaram que procurasse um especialista no Haiti para ajudá-la a voltar a andar. "Não consigo. Não tenho dinheiro nem carro para procurar e levá-la ao médico", disse seu marido. Nas horas livres, ele cuida da mulher, dando-lhe remédios e banhos com uma toalha. "Esse pé (o direito) não mexe. Não consigo. Só o esquerdo", explica Jean-Baptiste, que ainda fala com dificuldade.

Para proteger o seu bebê enquanto estava soterrada, Jean-Baptiste usou um pedaço de ferro. Com ele, quebrou os tijolos que pressionavam sua barriga. Ela revela que outra enfermeira chegou a sobreviver após o tremor de terra. As duas dividiram horas de angústia. "A gente conversava. Chorávamos, mas ela tinha muito tijolo nas costas", relata. A colega, segundo ela, não resistiu e morreu dormindo na quarta-feira, um dia depois do terremoto.

Na hora da tragédia, Jean-Baptiste cuidava de um bebê no hospital. "Corri para outro quarto, mas não deu tempo. Tudo desabou", conta. Segundo ela, nove pessoas e o recém-nascido morreram na hora. Quando percebeu a presença do marido procurando sinais de vida, Jean-Baptiste, até então sem água e comida, tentou contato: "Disse que não havia morrido." A enfermeira afirma que terá uma eterna gratidão aos brasileiros. "Devo minha vida a eles."

A haitiana formou-se em enfermagem em 1999. Diz que não gostava de costurar, profissão que exercia até então. Também chegou a ser datilógrafa. Fez um curso particular de enfermagem pago por seu pai.

Agora, ela diz que pretende voltar a trabalhar em um hospital. Por enquanto, Jean-Baptiste ainda está escolhendo o nome de seu próximo filho: "Se for mulher, será Ana. Se for homem, Marco", diz, alimentando esperanças.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.